Emílio "Zapata"

Emílio trabalhava desde pequeno nas tarefas da casa. Cada um tinha uma especialidade: a avó, meio índia, fazia esteiras. A mãe, fazia bolsas de vários tamanhos. O pai, fazia grandes chapéus, os sombreros. E o menino acompanhava com curiosidade todas aquelas artes. às vezes tentava ajudar, mas a mãe reclamava por que ele babava muito e sujava as peças no acabamento. Por isso ele fazia coisas que não exigissem muito cuidado. Varrer a casa, alimentar as galinhas no quintal, tirar água da cisterna para o gasto da casa e para molhar o milho e outras plantas da horta caseira. No passado a mãe e a avó ajudavam a fazer os chapéus para o velho vender. Depois que a avó morreu, a mãe entristeceu. Emagreceu e tossia que dava dó. Com pouco tempo ela também se foi. Agora o velho é que tinha que fazer, sozinho, e vender os chapéus. 

O rapaz mal frequentou a escola. Quando aprendeu a ler e escrever o pai disse que bastava, pois ele mesmo mal sabia assinar o nome e tinha a roça pra cuidar da família. Adolescente, aprendeu com o pai a cuidar das palmeiras no pequeno vale perto da pequena propriedade da família, de onde obtinham palhas para fazer as peças de artesanato. A palmeira dava um palmito dos bons, mas se tirasse o palmito, matava a planta. Por isso que não comiam nunca um palmito. Servia apenas para tirar as folhas. Quando faltava palha na eira, o pai dava uns gritos, que ecoavam até a plantação.

- Emílio, "paia"! Mais "paia"! 

E assim a vida ia passando, ouvindo os gritos do velho e correndo pra levar palha. Ele adorava trabalhar na plantação, camisa aberta ao peito, onde podia, volta e meia, sentar para fumar um cigarro de fumo de corda e pensar na vida, sonhar com o futuro. Se perdia em divagações, se imaginando ora aqui, ora ali, trabalhando em outros lugares de que ouvia falar. Um dia, estava a caminhar ao longo do riacho seco que passava perto das palmeiras, tentando adivinhar porque a água desaparecera. O pai dizia que era coisa do tempo. Um dia a água ia voltar. Mas ele sabia que estavam gastando água demais, depois que fizeram a barragem riacho acima para regar as plantações de cana e não sobrava nada para alimentar o riacho,  De repente, um grito do pai o tirou de seus pensamentos.

- Emíííílioooo!

O grito ecoou desde a eira, pelo vale até o a baixada para onde a água do riacho corria no passado e formava um pequeno lago onde, quando menino, adorava tomar banho. O rapaz estremeceu. Como sempre, tinha vontade de correr emprenhar-se no mato, fugir para longe. Mas o medo da surra na volta o fazia atender ao chamado do velho, grosseiro, agressivo. O chamado era mais que um grito. Era um berro! Subiu correndo até a eira, onde o pai trabalhava tramando a palha para fazer os grandes "sombreros" chapéus de abas longa.    

- Sim, pai?

A conversa com o pai era sempre difícil, carregada de repreensões. 

- O que tu tava fazendo essa hora da manhã, já com sol arto... fugino do trabaio, é?

- Não, pai! Eu bebi café e fui fumar um cigarro. Alisei a paia, piquei o fumo, enrolei e tirei u'as baforada...

- Disgraçado... A paia que tu tem de cuidar é a da palmeira! É o que bota comida dentro de casa! Num é paia de mi!

- Desce pra cortar paia, que eu tenho encomenda grande.

- Disgraçado... era um menino desgraçado, mas agora não é mais menino!

Emílio desceu correndo de volta para a plantação. Obedecia rápido. Assim ficava mais tempo longe do pai. Não conseguia entender essa mania do pai de o xingar. Ele sabia o que tinha que fazer todo dia. Limpar a plantação de palmeira Sabal, cortar as palhas ainda verdes e trazer até o meio da colina, onde ficava a eira, perto da casa. 

Quando pequeno Emílio não cuidava da plantação. E como ele babava muito não podia fazer sombreros de boa qualidade. Mas ele sabia fazer, pois não desgrudava os olhos das mãos calejadas de sua avó e de sua mãe. As duas mulheres foram nascidas e criadas na lida de tramar a palha. Primeiro eram as esteiras, depois os imbornais e por fim, os sombreros. Assim aprendeu a fazer cada trama. Para urdir a trama do sombrero, tinha que prender as palhas com os três dedos de baixo e com o polegar e o indicador dobrar pra dentro e depois por cima, fazendo a rodilha de cima do chapéu, depois dobrar e descer, dobrar de novo e fazer a aba bem grande. Na roça o sombrero era pra segurar o sol quente, que escaldava o juízo. Na cidade o povo usava também pra fazer festa, ou pra vender pra gente que vinha de todo lugar.

Um dia, já pela tardinha, estava na eira, quando ouviu, o velho gritar de pelos buracos do telhado, já muito estragado, que misturava palha, madeira, pedra, mas que de nada adiantava quando chovia. Tinha que espalhar as panelas dentro de casa, uma construção baixa, para aparar a água que caia das goteiras.

- Emíííílioooo!

O rapaz chegou babando, com esforço de subir a colina.

- Sim, pai.

- Disgraçado...

- Amanhã vai tomar banho, vestir uma roupa, que é pra ir vender os sombrero lá na cidade!

- O desgraçado que encomendou roeu a corda, não quer mais. Só tenho dinheiro pra passagem de ida. Vai, vende os sombreros e volta com o apurado.

- Mas pai, eu não conheço a cidade... é grande!

- Nem eu conheço mais... Tem 50 anos que não vou lá, já não sei andar naquela doideira de carros pra cima, carro pra baixo! 

O velho apertou as costelas, perto do peito esquerdo, com os dedos das duas mãos e comentou para si mesmo:

- Essa dorzinha aqui no peito, que responde nas costas. Eu podia ir no Doutor....Não! Na outra semana, se não melhorar eu vou!

E voltando-se para o rapaz, rosnou:

- E tu tem que dá pra alguma coisa... Ainda baba! Desgraçado...

Emílio baixou a cabeça e foi se deitar mais cedo que de costume. No dia seguinte, logo cedo, abriu a maleta de madeira ao pé da cama tosca e retirou a roupa que usara no dia do enterro da mãe. O enterro tinha sido bonito, o padre falou um bocado de coisa da mãe que ele nem sabia direito o que era. Mas que foi bonito, foi!

Pegou o caneco de alumínio e foi pros fundos da casa se lavar com a água da gamela. Quase nunca tomava banho assim. Gostava mesmo de tomar banho no riacho comprido e que ia dar lá no rio...

A calça agora estava meio curta, mas não tinha outra, tinha que se virar com aquela mesmo. A mãe tinha guardado um saco de açúcar que estava guardado junto com outro, com que iria fazer uma calça e uma camisa pra quando a roupa velha já estivesse por demais rasgada ou curta. Mas morreu antes.

A encomenda tinha sido de 30 sombreros. Arrumados um em cima do outro, tinha que carregar sem amassar, dentro dum saco branco de carregar açúcar.

- Me traga o saco de volta, vazio!

- Disgraçado...

Emílio caminhou uma meia légua até a beira da estrada onde passava o ônibus que ia para a capital. Esperou umas duas horas no sol, protegido por seu velho e lustroso sombrero, arte de sua avó quando ficou um rapaz de 15 anos. 

- Tu tem a cabeça grande, já pode usar um sombrero!

Gostava da avó. Contava uns casos engraçados dos tempo que era moça. A mãe era calada. Muito apegada com a mãe. Vivia às turras com o pai. Até que morreram, as duas, Sentia saudade, mas não tinha com quem falar, engolia.

Viajou agarrado com o saco, como o pai mandou. 

- Vai que tu dorme e um ladrão rouba meus sombreros... eu te mato!

Chegou na cidade e ficou assustado. Muito grande, muitos carros, muita gente, zoada. Não estava acostumado. Estranhou.

Ficou agarrado com o saco, sem saber o que fazer. O pai disse pra arranjar um lugar onde passasse muita gente e pra gritar "Sombrero!". Mas pra que gritar. se era o lugar de passar gente. Bastava mostrar...  Não sabia se ia para um lado ou para o outro. O sol estava caindo e viu por cima de um muro alto, branco, em cima de um paredão de pedra, uma imagem bem conhecida. A Cruz de uma igreja! Decidiu ir para lá. Talvez tivesse até um padre que falasse bonito como o do enterro... Chegou no muro grande que terminava numa praça. A igreja, era branca e amarela, com um relógio grande na frente a cruz em cima. Se sentiu menos inseguro. A mãe falava bem de igreja. 

Na esquina defronte, a um restaurante com um bocado de mesas. A praça era grande e no meio tinha uma fonte com uma torneira de onde saía um filete de água. Estava com fome. O café tinha sido forte pra aguantar até à noite, mas a caminhada até a estrada, a viagem, a caminhada até a praça carregando aquele saco com cuidado pra não amassar os sombreros. O pão seco que trouxera ficaria guardado para a noite, para a hora de dormir. Também estava com sede e aquela torneira era a salvação para segurar a fome. Não tinha que pedir a ninguém. Era só abrir e beber o tanto que quisesse. Depois de saciado se deu conta que não podia urinar assim no meio da rua. Viu uma caixa grande de ferro, encostada num paredão de pedra, pintada com umas letras, Mas não sabia ler. De repente viu um rapaz sair de uma restaurante trazendo um balde cheio de restos de comida e jogar na caixa. Lixo! Comida no lixo.

Contornou o contentor de lixo e aliviou a bexiga ali por trás. subiu no alicerce alto no pé do paredão para ver o que tinha no lixo. Muitos sacos e o lixo do restaurante. Cascas de abóbora, cascas de manga, de laranja. Já tinha seu próprio restaurante! Não sabia que horas eram quando ouviu o sino bater uma única badalada, longa, sonora. Em seguida, o alto falante tocou a música que a mãe adorava acompanhar no rádio velho, 6 horas da tarde. Cantarolou, imitando a mãe.

- Ave! Ave! Ave Maria... 

Caminhou carregando o saco até a igreja e foi entrando devagarinho, desconfiado de que não era lugar para entrar com saco. Veio um rapazinho todo fardado com aquelas roupas, como um padre e perguntou:

- O que é isso?

- Sombreros, pra vender. Meu pai, que faz...

Engoliu a saliva em excesso e sorriu com sua cara de bobo. O coroinha ficou com pena. 

- Quer ver a missa? Tire esse chapelão, sente no último banco e saia logo que terminar, que o padre é bravo! Se ver você com o saco vai me gritar: 

- Coroiiiinha!

Lembrou do pai, gritando seu nome. Sentou no banco, bem do lado da parede e ficou ali, quieto, ouvindo sem entender nada. Uma hora o padre falava e todo mundo respondia. Outra ora ele falava e o povo levantava. Umas mulheres até ajoelhavam. Depois de um tempo todo mundo começou a se abraçar e virar para a saída. Lembrou do sacristão. Pegou o saco e fugiu para o lado de fora.

Ficou olhando as velhinhas saírem da igreja até que viu um grande e barulhento caminhão chegar na praça com 4 homens fortes. Os viu derramarem todo o conteúdo do contentor de lixo na caçamba e irem embora. Adeus comida...

A temperatura estava agradável, mas não tinha vendido nenhum sombrero. Tinha que arranjar um lugar pra dormir. O coroinha já vestido com a roupa da escola noturna, se aproximou:

- Emílio, como é seu nome de família? 

- Sei não. Nem família eu tenho mais. Mãe era "Maria Das Dores". Nome de pai eu num sei... Era Mané... sei lá de que! Lá na plantação ele só me chama de desgraçado...

- Virgem Maria... que nome feio! Mas onde você vai dormir?

- Não sei... Se chover vou pra frente do restaurante. Lá tem sombra!

O coroinha, condoído apontou uma árvore ao pé do paredão da igreja e disse:

-  O tempo está firme. Não vai chover. Te arruma ali, por trás dessa árvore grande. Tem um cachorro que gosta de se entocar ali, também. É manso. Amanhã vou ver se o padre te deixa dormir lá nos fundo.

Emílio ficou um tempo vendo a noite cair. Depois foi se encostar no paredão, por trás da árvore. Ao ouvir a quarta badalada do sino, já era lá pelas 8 horas da noite, viu o rapaz do restaurante trazer os restos das comidas, das cascas de frutas e verduras. Se aproximou curioso e perguntou:

- Posso pegar uns restos.

- Claro. É resto... Ainda não é lixo. Mas quando eu jogar aí dentro do contentor, vai virar lixo.

Emílio não se fez de rogado. Virou a boca do sombrero para cima e encheu com restos de arroz, farinha de milho e restos de carne. Viu a cara de espanto do rapaz e explicou:

- A carne mastigada é para um cachorro que se entoca de noite ali na árvore... 

Além da comida, pegou uma garrafa plástica vazia, grande, dessas de refrigerante, e uma lata vazia de atum, foi à fonte pegar água e voltou para a árvore todo satisfeito com a coleta. Ia comer melhor do que comia em casa. Quando voltou já encontrou o cachorro amarelo, olhando desconfiado para aquele intruso de seu "lar". Mas o cheiro da comida e os pedaços de carne mastigada que ganhou, iriam estabelecer uma relação de mútua proteção. Emílio decidiu chamar o cachorro de "Bonbon" por causa sua cor, amarelo encarnado, como uma das balas de mel que sua avó fazia, derretendo açúcar num tacho. 

Comeram o lauto jantar. Bonbom olhava agradecido para aquele estranho que invadira seu pouso, mas trouxera comida e água. Dividiram o "copo" de atum para matar a sede. Depois de andar pelos bairros, correr e latir atrás de bicicletas e motos, estava cansado e se acomodou para dormir. 

Emílio ficou a pensar o que fazer com aquele saco cheio de sombreros. Onde vender, quem ia comprar, quanto cobrar, Não sentia saudade da roça. Estava feliz em descobrir um mundo completamente novo para ele. Meio assustador, a princípio. Mas se todo mundo vivia ali, ele haveria de viver. Ele e Bonbon. Nunca tivera um cachorro na roça. Seu pai dizia que bastava um desgraçado em casa. Ele se achava meio desengonçado, mesmo, mas desgraçado... O que era ser um desgraçado? Nunca soube por que era chamado assim. Estava nesta conversa consigo mesmo, os olhos já pesados, chamando o sono, quando apareceu o coroinha, de volta da escola, 

- Trouxe uma coisa pra você, Emilio! Goma de mascar! 

- Goma? Pra que? Os chapéus estão durinhos. Pai passa a goma por dentro antes de botar o pano pra ficar em pé. 

O coroinha riu da ignorância do novo conhecido. 

- Goma de mascar, seu tolo!

Emílio sabia o que era mascar fumo. Não gostava, mas o pai mascava fumo e cuspia preto pra todo lado. Depois de receber e mastigar as duas tirinhas coloridas que o coroinha lhe deu, disse, surpreso:

- Isso é borracha? Parece uma goma de árvore que minha avó usava pra areiar os dentes!

- Pode ser parecida, mas essa é da fábrica americana e vai consertar essa babeira sua. O padre também saliva muito. Diz ele que é sialorréia, nome doido... Enquanto ele masca, ele engole a saliva. Na hora da missa ele cola o chicle debaixo do púlpito. Só eu sei disso. Re! Re! Re!

- Amanhã é sábado, dia bom pra vender seus chapéus. Vem gente de toda parte para a festa de Santo João Batista. Esse ano vai cair no Domingo, mas o povo já começa a chegar amanhã. O sol vai estar tinindo na cabeça do povo. Vem muito gringo americano... E só tu estás a vender sombrero... cobra caro, aproveita! 

- Emílio, depois da missa o padre vem na porta abençoar os que não podem entrar, os doentes, os de cadeira de rodas. Nessa hora, entre no fim da fila e dê um sombrero de presente pra ele. 

- De presente? 

- Sim. Não discute! Eu sei o que tô fazendo. 

Dar de presente? E se o pai souber? Emílio ficou pensando, mas permaneceu calado. O coroinha era mais esperto que ele, que vinha da roça. Além disso, ele vinha pensando em cobrar 100 pesos, com medo de nada vender. Com a dica do coroinha, podia dobrar o preço para 200 pesos. Afinal, os sombreros de seu pai tinham muito boa qualidade. Era ele, Emílio, que colhia a palha para seu pai e ele descartava todas folhas bichadas. Só trazia para a eira as melhores folhas. Se não vendesse, baixava no domingo. 

Sábado os raios do Sol apareceram cedo por entre os montes e a claridade acordou os dois ao mesmo tempo. Emílio e Bonbon teriam um dia cheio. O coroinha trouxe uma cadeira de plástico com o encosto quebrado. O assento serviria de banca para colocar a pilha de chapéus. Quando o Sol apertasse as pessoas procurariam a sombra da árvore e seria um bom momento para oferecer os sombreros.

Bonbon saiu de mansinho para seu passeio habitual e Emílio se preparou para o comércio. A roupa estava machucada, mas limpa. E não tinha outro jeito...

Seriam duas missas uma às 9 e outra às 11 horas. No intervalo teria que arranjar o que comer. Nem que fosse um pão seco. Mas no intervalo foi exatamente quando os fiéis se aproximaram e ele não podia perder as vendas. Os chapéus eram de tamanho único e isso atrapalhou um pouco. Não tinha chapéus para pessoas de cabeça pequena. Mas tinha gente que levava para os parentes. No meio do intervalo viu o coroinha passar por detrás da árvore e deixar alguma coisa. Piscou o olho para Emílio e voltou correndo para preparar o altar para a segunda missa. 

Um dos primeiros romeiros fez uma brincadeira, dizendo:

- Esse é o sombrero de Emiliano Zapata?

Emílio tinha ouvido qualquer coisa sobre esse tal Zapata. Não perdeu tempo e respondeu sorridente, apontando o sombrero:

- Sim, Sim, É do Zapata! É o sombreirão do Zapata! 

Estava criada a marca do chapéu: "Sombreirão do Zapata". Mais ainda, todos o apelidaram com o mesmo nome. 

Quando começou a segunda missa os romeiros se afastaram e Emílio descobriu o que o coroinha deixara atrás da árvore: um pão com queijo e mortadela e uma garrafinha de refrigerante de limão. Lembrou de bonbon, mas comeu todo o lanche. Bonbon que se virasse pelas lixeiras! 

Terminada a missa formou-se a fila da benção dos enfermos, cada um com uma história pra contar sobre suas dores e dificuldades. O padre a todos ouvia com paciência. Emílio, último da fila, estava lá para fazer sua oferta. O padre gostou do chapelão e saiu fazendo graça, feliz que estava com a afluência dos muitos fiéis.

Na tarde de sábado, o coroinha deixou Emílio usar o sanitário, e guardar os chapéus no anexo, onde tinha sua cama. Foram então almoçar no mercado municipal. Depois do meio da tarde o almoço era mais barato. Era uma caldeirada com os rabos e as cabeças dos peixes que sobravam depois que os filés eram retirados para os pratos mais bem feitos. No fim da tarde houve apenas uma missa e no Domingo repetiu-se as três missas. E não sobrou um dos 29 chapéus! 

Emílio só voltou na segunda feira bem cedinho, pela manhã. Bonbon não quis acompanhá-lo, ficou dormindo, recuperando-se da estrepolias do dia anterior.

Estava ansioso para entregar o dinheiro ao pai. Talvez, então, ele poderia deixar de o chamar de desgraçado. Desceu do ônibus e caminhou apressado para casa, a meia légua de retorno. Estranhou não ver de longe a fumaça da chaminé. Naquele horário era comum ver a fumaça do fogão a lenha, aceso para cozinhar a mandioca, fritar os ovos, fazer o bule de café.

Chegou à porta, ainda trancada e chamou:

- Pai?

Ouviu um ruído, rodeou a casa e enfiou a mão por um buraco na parede de taipa, destravou a tramela e encontrou o velho com a mão no peito, gemendo. Quis se aproximar, mas o velho falou de um jeito enrouquecido e esganiçado:

- Disgraçado, cadê o dinheiro dos 30 chapéus?  

Emílio estirou o braço e entregou 580 pesos. Os olhos do velho se arregalaram. 

- Vendi 29 chapéus a 20 pesos cada. Um sombrero eu dei ao padre...

O velho apertou o dinheiro contra as costelas e disse, com a mesma voz esganiçada:

- Deu ao padre... Disgraçado!

Emílio se afastou. Era melhor ir cuidar da plantação, enrolar um cigarro, tirar umas baforadas e pensar na próxima viagem. Seu paí agarrara com tanta sofreguidão o pacote de pesos que, por certo, todas as semanas teria que ir à cidade vender os chapelões.  Ficou por lá até o fim da tarde, colheu um monte de palha, que trouxe para a eira. 

Havia uma questão que Emílio queria compreender. Por que seu pai o xingava de "disgraçado" com tanta freqüência.  

Ao retornar encontrou o dinheiro esparramado no chão perto da cama. Então viu que o pai estava com o corpo meio emborcado para fora da cama, com os olhos parados, fixos. O coração do velho não aguentara. 

Não sabia se de fato seu pai morrera de emoção pelo bolo de dinheiro que nunca tinha segurado em sua vida ou pela falta dos 20 pesos do chapéu ofertado ao padre. Sentiu saudade de bonbom. Mas agora era a sua vez de assumir a plantação, a fabricação e a venda dos chapéus Sombreirão Zapata. 

Foi a última vez que o rapaz ouviu ser chamado de Emílio e de desgraçado. Ninguém mais o chamava pelo nome. Até o padre o chamava de "Zapata".

Viva "Zapata"!




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