Colina do desespero

Almocei mais cedo e saí para trabalhar. Tinha que documentar um projeto agrário, em desenvolvimento no Alentejo. Precisava estar em um lugar alto, mesmo um pouco distante do assunto, um grande conjunto de estufas em um belo vale perto da Serra da Arrábida. Parei o carro defronte da entrada de uma quinta com galpões típicos para criação de galinhas.
Subi a colina a pé, margeando as casas miseráveis à esquerda. Do outro lado da ladeira descortinava-se um imenso vale, onde se produzia uvas de alta qualidade. A planície inteira estava sendo usada para desenvolvimento de uvas viníferas de qualidade superior. Trouxera-se para lá imensa quantidade de terras próprias para o cultivo de diversos tipos de uvas:  Aragonês, Trincadeira, Touriga Nacional, uvas da região, do Douro, da Espanha, da França e de outras províncias distantes: Chile, Argentina e até da Austrália. Se expostas ao Sol, à chuva e aos.ventos, era claro que não iria dar certo. Por isso estavam todas protegidas por estufas climatizadas, em que se tentava reproduzir as condições climáticas das terras de origem. 
Todos os moradores da colina que eu tentava vencer trabalhavam nas culturas de uvas. Os empregadores não suportariam conviver com a miséria das roupas velhas de mil dias, furadas, rasgadas, esfarrapadas, mesmo recosturadas e remendadas. Por isso, só então os empregados vestiam roupas limpas, bem costuradas, as fardas de trabalho fornecidas pelas empresas mediante uma pequena parte do custo dessas roupas. Assim os patrões pareciam convencer-se de que eles tinham boa renda, e obtinham a mais-valia que lhes permitia viver e trabalhar com a dignidade que lhes era de direito.
A subida era íngreme, estafante, e não parecia haver alma viva naquelas moradias miseráveis, com cachorros tristes e esquálidos às portas. Nem se davam ao trabalho de latir para o estranho que subia resfolegando. Vez por outra ouvia-se uma imprecação, um ai de dor súbita, que não
 se vive e envelhece sem dores, artroses, sem bronquites, gripes eternas a fazer escorrer meleca pelos narizes vermelhos de tanto se esfregar.
Cheguei ao alto da colina, destravei a barraca de abertura automática e me sentei para respirar e esperar o sol esfriar um pouco. Era impraticável fotografar com tanta luz. Fechei os olhos pensando em cochilar, mas era impossível, com tanto calor. Peguei a garrafa de água Perrier e antes que a abrisse ouvi um chamado:
- Ei, homem!
Abri bem os olhos e senti a luz do sol ainda muito desconfortável. Apertei as pálpebras e vi aquela criaturinha barriguda  à minha frente, vestido esfarrapado, um lenço à cabeça que eu não sabia se era um resto de pano de chão ou de pratos.
- O senhor quer fazer "ozadia"? 
A pergunta atirada assim, sem uma introdução, sem uma palavra menos agressiva, me chocou. Como aquela.menina de uns 12 ou 13 anos me fazia uma pergunta tão estonteante? E o que era isso de "fazer ozadia"? Ousadia, no meu vocabulário, é uma palavra para atitudes e comportamentos heróicos.
 Mas na boca daquela menina parecia uma arma de luta, de ataque, para fins de sobrevivência.
Apertei os.olhos com os dedos, esfreguei a testa, apoiei o queixo na mão e perguntei do.jeito mais suave possível:
- O que é fazer "ozadia" filha? 
Esse "filha" saiu com retiscências. Como aquela criaturinha mirrada, de uns 12 anos aparentes, podia me fazer aquela pergunta?
Ela sorriu, matreira, virou-se de lado para exibir o contorno das nádegas diminutas e disse:
- Ora...o que os homens das vinhas vêm fazer aqui nessa hora? Dar dinheiro e fazer "ozadia"!
Lembrei da minha filha com pouco mais de 13 anos, numa boa escola, bem alimentada, bem vestida, com livros, cadernos, lápis, canetas, se preparando para a vida nos cursos superiores e tive contade de chorar. Mas não podia.Tinha que reagir ao choque.
- Eatá com fome?
Balançou a cabeça.
- Não. Comi mandioca agorinha mesmo. Tô com sede!
A garrafinha de vidro ainda estava fechada em minha mão. Abri e a estendi para ela. Pegou naquela preciosidade, garrafa de água de vidro... 
Olhou-me meio incrédula.
- Posso beber? 
Essa pergunta revelou quanto de escravidão ainda se pratica entre nós. Ela estava insegura de poder beber da água límpida, cristalina, que lhe era oferecida em uma impecável garrafa de vidro. Pertencia a um homem fino! Poderia ela beber daquela preciosidade?
- Pode beber, sim. Toda! Tenho mais.
Não se pode dizer propriamente que apenas bebeu. Deliciou-se. Quando poderia novamente dar-se ao luxo? Girou a garrafinha na mão, como se quizesse guardar aquele momento. Estendeu a mão para devolver a garrafa. Fiz um gesto de recusa e ela aninhou o "presente" entre os seios pequenos.
- Ainda não trabalha... Mas vai à escola?
Ela alisou o ventre e respondeu devagar:
- Ainda não tenho idade. Os homem não deixam. Tenho que esperar. Alisou novamente a redondez do ventre e estirou o olhar para o horizonte.
- Escola não tem aqui não. Só na cidade. Mas não tem como ir...
Tentei encontrar um caminho para aquela vida sem apoio, sem proteção. 
- Não pode criar galinhas, para ter ovos? 
- Tinha uma. Mas pai chegou bêbado da rua e matou pra assar. Lá na quinta vende. Tem que juntar dinheiro, mas os homem pagam pouco... 
E sorriu meio sem graça.
Cobri meu rosto com as duas mãos e desabei em um choro convulsivo.
A menina parou de sorrir, assustada, e perguntou:
- Por que.o senhor está chorando?
- Nada... nada... nada! Vá,menina! Quando o Sol estiver pra se esconder, você vai comigo até lá embaixo na quinta. Vou. comprar 6 galinhas para você criar. 
Crianças desnutridas têm olhos enormes. Ela levantou as sobrancelhas, escacarou as pálpebras e disse, incrédula:
- Seis galinhas?
Conferi o Sol e disse, a ela, rápudo e firme:
-  Vá! Tenho que trabalhar!
Abriu o mais lindo sorriso que poderia ter. Saiu saltitando.
Pus a câmara no ombro, olhei para o céu sem a menor condição emocional.
Olhei para trás e ela ainda arriscou:
- O senhor não quer... 
Fiz um gesto brusco, de cara feia. Ela se encolheu e foi para baixo, ainda sem entender porque aquele homem estranho chorou.

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