Fazenda Mansão
Passei pela Serra do Espinhaço, no Município de Maracás, na Bahia, lá pelos anos 60, com meu pai, a caminho de uns 500 hectares de terra (255 titulados), que ele ganhara de presente de um dentista prático, com quem tentara aprender a arte de "protético". Terra tórrida, onde nem passarinhos sobreviviam. De umbu em umbu caia uma chuva e formava-se um córrego que deixava umas poucas poças d'água, onde as aves de arribação se dessedentavam e, como era da sua natureza, logo arribavam para sítios melhores. O que se via verde ou era um periquito extraviado ou a ponta de uma aroeira que se negava a morrer.
Para chegar à roça era preciso pousar primeiro numa antiga casa de fazenda, pertencente a um senhor muito idoso, o sr, Eloy, que resistia à beira da estrada, a 6 léguas de Maracás, junto da única lagoa permanente, a de Pé do morro, água que partilhávamos com o gado, eu, ainda um meninote.
O velho Eloy contava ter saído dali, a cavalo, 50 anos antes, para uma visita à cidade de Maracás. E nunca mais arredara pé.
No caminho estreito de alguns quilômetros desde a fazenda do velho Eloy, me aterrorizava com os gemidos tenebrosos das imburanas, que se retorciam com a passagem de uma rajada de vento quente e com a sempre possibilidade de surgimento de uma onça, uma jaguatirica, ou mesmo uma vaca perdida. Tudo assustava o menino vindo da cidade e que nada entendia de roça.
Nada tínhamos levado para comer... nada, a não ser a indefectível farinha! Me virava com umbus verdes e uma farofa de farinha grossa, quase crueira, misturada com os maxixes que se arrastavam amarelos pelo chão de poeira vermelha.
Um dia, surgiu uma proteína: meu pai acertara, com um chumbo fino da espingarda, um calango que ele disse ser um camaleão. Não comi do banquete de que ele e minha irmã se serviram. A fome, a desnutrição, um arranhão aqui, outro ali, voltei a Jequié com umas perebas, logo tratadas com mertiolate ou bálsamo de arnica, pomada Minâncora e lembro eu lá mais o que...
Meu pai até tentou criar umas cabras, mas umas onças, segundo ele, de "dois pés" deram cabo da criação. Depois cultivou abóboras, que eu mercava na feira de Jequié. Como as abóboras dependem da chuva, quando um colhe, todos colhem, sobram as montanhas de abóboras na feira, o preço cai e se não se vende logo, terminam apodrecendo. Assim se encerrou, sem qualquer sucesso, minha primeira experiência de trabalho (trabalho infantil...).
Mas valeu a viagem. Embora curta, gravei na mente o que é fome real, o que é viver miseravelmente, sem água limpa para beber, sem comida, no meio do nada que é o semiárido nordestino.
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