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Mostrando postagens de janeiro, 2020

O Crente

Há muitos, um Domingo pela manhã, eu estava viajando por uma região de fazendas de cacau, quando vi um homem, senão bem velho, muito desgastado, pele curtida, corpo encurvado, vestindo um terno muito bem limpo e passado a ferro, creio que até engomado. O velho caminhava lenta, mas firmemente, por um caminho de roça, um tanto íngreme. Levava uma bíblia na mão direita.  Pensei, naquele momento, que os evangélicos cresciam absurdamente naqueles anos porque propiciaram a homens como aquele, vestirem um terno, uma vez por semana, com gravata e tudo. Imaginei aquele senhor, de frente de um espelho quebrado, se vestindo de cidadão. Isso! Vestindo-se de cidadão... D e segunda a sexta ou sábado, ele era um escravo do capital. Trabalhava a duras penas para fazer o patrão ficar e permanecer rico. Mas Domingo, ah! Domingo era dia de ir à igreja, de ser chamado pelo seu nome de batismo e não por um apelido. Ali não era Zé, Jão, Mané... Ali era sr. José do Carmo dos Santos. Sr. João Nepomucen...

É, o mal, natural!

O mal é, mesmo, banal. É natural. A agressividade, componente natural dos animais, necessária à sobrevivência, o leva a submeter o mais fraco. É próprio da natureza que o leão mais forte seja o "rei". Que o gorila mais forte, e agressivo, seja o líder do seu grupo. É natural que os grupos fortes combatam os grupos fracos para afirmar sua superioridade e assim garantir sua sobrevivência. No entanto, a violência tem que ser contida. Entre os animais não humanos, não de prática a violência sem motivo e não se excede no uso da força. A compreensão da utilidade da preservação do outro e do outro grupo, a conveniência da vida em comunidade, a insustentabilidade de uma vida de medo, nos tem levado à compreensão de que é preciso preservar a vida entre os grupos e dentro dos grupos. Por isso, nós, animais humanos, buscamos a composição dos litígios, fugimos da Lei de Talião, e definimos um tratado definindo limites e estabelecendo uma governança de contenção para o julgamento das lid...

Liberdade de expressão X censura

A censura estatal é necessária. Penso que cabe a ação do estado Administração e do estado Justiça na regulação de atividades comerciais tendo em vista o interesse público. A definição do preço dos transportes, enquanto exploração sob concessão estatal, deve ser objeto de regulação pelo estado Administração. Já questões como a defesa universal, dirigida a todos os públicos, da liberdade de interação sexual entre parentes na família interna, entre irmãos ou entre pais e filhos, a censura estatal é lícita. No caso da maconha tivemos por esses dias uma manifestação no programa de Fátima Bernardes, voltada para a liberação da "Verdinha" essa planta cujo uso tem sido devastador, pois vem destruindo a vida de muitos jovens, como gatilho disparador de esquizofrenia. Penso que a liberdade de expressão não exclui a responsabilidade das pessoas e empresas. Um dileto amigo, citando a Bíblia, disse que tudo é lícito, mas nem tudo convém. Concordo com a segunda parte. Não concordo com a ...

Agressividade e construção

A agressividade é uma característica útil ao ser humano, à vida. Sem agressividade o mundo não teria se desenvolvido. Sem essa característica, os animais machos não formariam grupos e não promoveriam o seu crescimento. A formação da família, pela submissão de fêmeas, e a defesa dessas fêmeas e de suas crias, contra a agressividade de outros animais, permitiu o crescimento populacional, a formação de grupos, tribos, clãs. Sendo nós do Reino Animal, se nos aplica tal fenômeno. Foi graças à agressividade do Neanderthal que sobrevivemos aos animais selvagens. E aos próprios inimigos tribais. E quando deixamos de ser animais? E quando deixamos de lado a agressividade? Nunca! O menino recebe mais testosterona com o propósito claro de se tornar agressivo, realizador, construtor feroz. Mas, se a agressividade constrói, preserva, desenvolve, a violência desconstrói, destrói, indignifica. A civilização depende da contenção da violência e preservação da agressividade. 

Humanidade e compaixão

Uma amiga dileta me falou bem sobre a qualidade  um texto de Walter Hugo Mãe, em que ele defendia um comportamento mais compassivo das pessoas e mais humanidade. Disse-lhe que só por ter mãe no nome, já me é simpático. Gostei de... "A radicalização das convicções leva a uma emotividade primária em que a frustração inventa o ódio." Tenho reservas em relação a... "Usar-se a compaixão é demonstrar-se a essencial inteligência. Aquela que opta por estar do lado da Humanidade ao invés de se render ao bicho que na História inteira procuramos educar." Penso que precisamos nos render ao bicho que é nosso hardware. Bicho tem compaixão? O leão tem compaixão do cervo que devora, ainda vivo? É isso antinatural? Se for compassivo deixo de comer bacalhau, sardinha, picanha... Ou só devo ser compassivo com outros humanos? Devo, então ser bicho com os bichos e humano com os humanos? Mas não é desumano comer bichos? Penso que nada é mais humano que reconhecer-se bicho e, os observa...

Próspero Ano Novo

Perto de meia noite da virada de Ano Novo, hora de caminhar e refletir sobre a vida... Vivemos caminhando pelo futuro imediato. Hoje é o primeiro dia de nossas vidas. O que ficou para trás é morte. Quem realmente importa, está conosco, na tela do nossos telemóveis, na carteira próxima, na casa ao lado. Muitos estarão conosco no futuro próximo. Sequer sabemos quem são. Mas comporão  nossa história e nós as deles. Por isso, meus amigos, amigas, filhos, parentes, meus amores de todos os dias, aquietemos os nossos corações e caminhemos firme e calmamente, de braços dados, na direção das luzes que iluminam nossos caminhos. Com gratidão refletida na nossa generosidade, na nossa solidariedade, ouvindo o outro, sem lhe dar lições. Porque a melhor lição é o ouvir. Ano Novo próspero de felicidade para todos!

A explosão da maria fumaça

Amo trens antigos, daqueles ingleses, "maria fumaça", com seus chiados e apitos e sino, para alerta e comunicação. A porta do forno ainda aberta sendo abastecida de lenha, para gerar mais vapor e lá ia a maria fumaça resfolegando. Um apito alto para avisar da partida, um tinir do sino de bronze, sinais de comunicação entre o maquinista e os guarda-freios. : tchum!... tchum!... tchum! chiiii... chiii... chi... chi, chi, chi, chi... piuiiiii! piuiiiii! piuiiiii! Na velha estação amarelo colonial de passeio alto, o pátio fervilhava de gente na chegada do trem de pasageiros. Malas de couro, cintadas, baús, sacos, em que as pessoas carregam pedaços de suas historias antigas e recentes. Os trens de carga, com suas crgas de mamona e açúcar mascavo a granel, que furtávamos por buracos no assoalho dos vagões, sem outro objetivo que o de fazer traquinagens. Um dia, Xoxo apareceu assustado, gritando: - O trem explodiu! Avisaram que tinha problema na caldeira, mas viajaram assim mesmo...