O Crente

Há muitos, um Domingo pela manhã, eu estava viajando por uma região de fazendas de cacau, quando vi um homem, senão bem velho, muito desgastado, pele curtida, corpo encurvado, vestindo um terno muito bem limpo e passado a ferro, creio que até engomado. O velho caminhava lenta, mas firmemente, por um caminho de roça, um tanto íngreme. Levava uma bíblia na mão direita. 
Pensei, naquele momento, que os evangélicos cresciam absurdamente naqueles anos porque propiciaram a homens como aquele, vestirem um terno, uma vez por semana, com gravata e tudo.
Imaginei aquele senhor, de frente de um espelho quebrado, se vestindo de cidadão. Isso! Vestindo-se de cidadão...
De segunda a sexta ou sábado, ele era um escravo do capital. Trabalhava a duras penas para fazer o patrão ficar e permanecer rico. Mas Domingo, ah! Domingo era dia de ir à igreja, de ser chamado pelo seu nome de batismo e não por um apelido. Ali não era Zé, Jão, Mané... Ali era sr. José do Carmo dos Santos. Sr. João Nepomuceno da Silva. Sr. Manoel Pinto de Oliveira. Ali ele tinha nome. Ali ele era cidadão!
O pastor falava bonito, ele conferia na Bíblia. Não entendia muito bem algumas coisas, discordava da interpretação de umas passagens, desconfiava que o pastor enxergava mais do que estava escrito... Mas o que importava? Na saída, o pastor encerrava o culto com um membro do grupo fazendo a oração. E aproveitava para se posicionar ao lado da porta de saída, de modo que não deixasse de apertar a mão ou abraçar a todas as pessoas e lhes dizer um "Deus o abençoe, irmão!".
Puxa vida, irmão. Ele tinha irmãos de sangue. Irmãos de trabalho. Mas ali o "irmão" podia, devia, até, vestir paletó e gravata. Gravata!
Depois ia para casa comer macarrão, rápido de fazer, gostoso, leve, sem atrapalhar o cochilo da tarde, privilégio que só tinha aos domingos. 
E ficava a pensar na poupança que estava fazendo com o dinheiro que antes era da cachaça e da aposta perdida no sinuque da vendinha... quem sabe, não comprava um dia um terno de Nycron, que nunca amassava e parecia com o do pastor?
Depois era só pegar o rádio elétrico, colocar na única tomada da casinha de taipa, concessão do patrão, gente boa, e ouvir o Baêa levar uma bela surra do seu Vitória do coração, substituto do Flamengo que seu pai ouvia, anos 50, nas ruidosas rádios de microondas do Rio de Janeiro. 

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