Vó Mariquinha

Estou lendo "Passos de nossos avós", presente de minha querida amiga, Eliete Souza. Depoimentos de 2, 3 páginas de 33 pessoas, rememorando momentos de seus e suas avós, portugueses.
Só conheci uma avó, Mariquinha. Uma brasileirinha pequena, de olhos miúdos, cheios de esperteza, uma lutadora! Lembro dela, com mais de 60 anos, cuidando de uma tia, tia Dona, que precisava de ser movimentada todo o tempo sobre a cama, pois já nem podia usar a pesada cadeira de rodas, em madeira maciça, com um buraco para o penico no meio do assento. E eu me divertindo empurrando a tal cadeira para lá e para cá, numa zoadeira infernal, dando vazão à minha hiperatividade!
Minha vó Mariquinha era boa de contar histórias! Delas, lembro de "A nega de cera" nitidamente preconceituosa, "Nem bem nu, Nem bem vestido", em que os animais da florestas participavam de um divertido concurso para casar com a filha do "Reis", assim, no plural mesmo... "O Gato de Botas" etc. Nos a ouvíamos atentos e ríamos a bandeiras despregadas!
Viveu 96 anos, no fim fazendo bonecas de pano, enfiando linhas nas agulhas, sem uso de óculos. Um dia lhe ofereci um binóculo, para que pudesse olhar pela janela para os prédios ao longe. Assestou-o em uma direção e disse baixinho:
 - Sisá...
Eu a corrigi:
- Não é sisal, minha vó... São bananeiras!
Ela retorquiu:
- Não, meu fi... É Sisá mesmo... Na placa!
Só então me dei conta de que ela olhava para o outdoor ao lado das bananeiras, onde estava escrito SISAL CONSTRUTORA.
Saudades, minha vó!

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