Um conto de réis
- Nem te conto! Disse como se fosse fazer uma grande revelação, deixando a mulher atenta, cabeça e tronco alinhados para a esquerda, na direção da porta, sobrancelha arqueada. Caminhou até a parede da varanda, colocou a sacola pesada no chão e sentou-se. Deu um suspiro profundo e continuou:
- Esqueci as moedas no bolso da calça. Fui pro mercado a pé, pensando voltar de ônibus. Paguei a compra com o cartão, peguei a sacola e saí praquele ponto na frente.
- Chovia leve, mas o céu estava carregado! Disse acentuando a última palavra.
- Só deu tempo de chegar dedaixo da cobertura, o pé d'água caiu. Ave Maria!
- Enfiei a mão no bolso pra pegar o dinheiro transporte... Babau! Nem um minrréis chorado... Quase chorei de raiva.
A mulher fez um muxoxo
- tsc, tsc!!! Vamos ao que interessa. Trouxe a Corvina?
- Não... Muito cara! Trouxe Vermelho. Tá a na promoção de 3,99, trouxe logo 2 quilos. Dá pra semana toda...
- Veio limpo?
- Veio. Mandei cortar em três postas cada. Me dê a pia e deixe eu descamar e passar o tempero, senão o peixe não pega gosto.
- Melhor mesmo! Tô acabada de dor nos quartos. É esse travesseiro alto. Vou abrir e tirar metade da espuma.
Disse a mulher e saiu na direção do quarto, se torcendo toda.
"Também... Com um bundão desse, 20 ano carregando pra lá e pra cá..." Sorriu e tascou a passar o ralo pra tirar as escamas. Enquanto limpava o peixe, ficou a fazer as contas. "Dez conto a Corvina! Peixe bom de fazer moqueca. Com pouca demora pega o tempero, fica uma delícia. Mas o vermelho, se furar bem antes de esfregar o tempero, também fica bom. E as espinhas também, grandes, facinho de tirar. E a 3,99, com 2 quilos, quase 9 conto, livrei um conto de réis!"
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