Contos sem fim. Conto 1. O sonho.

O clima de Portugal é um abraço amigável para gentes de qualquer parte do mundo. Ao Sul, acima da África e da entrada do Atlântico para o Mediterrâneo, perto do Estreito de Gibraltar, o Algarve é um paraíso aquecido para quem vem de regiões geladas. Ao Norte, as Terras Altas de Portugal onde o viés ecológico ainda se encontra em territórios de natureza preservada, são lugares onde muitas histórias ancestrais relembram as origens do povo português e seus vínculos com a Galícia, especialmente as nuances linguísticas, o que é um atrativo para quem se interessa por variantes da língua latina. Não que não seja, por igual, bom para nórdicos, asiáticos, ingleses etc. Mas para quem fala português, espanhol, francês, línguas com forte origem no Latim, a adaptação pode ser mais fácil. No Litoral centro, incluindo Lisboa, e o norte de Setúbal, as temperaturas são mais amenas, mesmo no inverno, posto que não há neve. 
Numa dessas manhãs frias de Dezembro, o som de uma porta a bater, me dava a hora exata, pois era o mesmo ritual de todos os dias: a moradora do rés do chão, saía para o trabalho, sempre no mesmo horário. Era essa a minha senha, minha deixa, para começar a acordar o corpo. Não bastava abrir os olhos, era preciso girar o torso para a direita, depois esquerda, para recentralizar as vértebras, dobrar e esticar as pernas até sentir repuxar os músculos da parte de trás das coxas até o glúteo. Depois ficar de pé bem junto à cômoda, com as solas dos pés firmados contra a gaveta inferior, até sentir dor nas panturrilhas, único modo de evitar o "esporão de galo" que mata um cristão de dor no calcanhar, garantia de não sofrer um acidente vascular cerebral matinal.  Findo este ritual, estaria pronto para o pequeno almoço. 
De repente, sem que nem pra que, lembrei de um estranho sonho que tivera enquanto dormia. Quedei quieto, como para não "assustar" o sonho e poder fixar, um pouco que fosse dele, no plano consciente. Meus sonhos são moleques fugidios. Mal aparecem e já fogem para a escuridão da inconsciência, sem dizerem a que vieram. Nessa manhã, porém, o sonho estava ali, presente, durando mais que o de costume, com a imagem de um objeto envolta em névoa em um lugar, também de contornos imprecisos, sem outras referências a não ser o silêncio. O que seria aquela imagem? Um odre, uma ânfora, uma jarra? Ora parecia uma jarra com pescoço e tampa. outras vezes um vaso decantador de vinho, e ainda uma especie de garrafa bojuda, de formato engraçado, com a parte de baixo mais larga, a de cima mais estreita e com a tampa em formato de castanha sem casca. Também não atinava com o tamanho do vaso, pois às vezes parecia que poderia tomá-lo em uma de minhas mãos; outras vezes me parecia algo que teria de segurar de modo gentil, para não o quebrar. Vez em quando me ocorria algo com um metro de altura! O silêncio circundante remetia a uma idéia de espaço não habitado, uma cave, um templo, um museu, um convento. Decerto, pensava, era um objeto de culto religioso. Mas o que me chamava a atenção era a permanência da imagem na memória. Era incomum. Nunca a lembrança de um sonho durava mais que poucos segundos e depois era impossível saber o que vira, o que dissera, o que pensara o que sonhara, enfim. 
Um banho morno, depois do desjejum, talvez me trouxesse alguma clareza, pensei à época. Adorava esses banhos. Eram como um gatilho para minha criatividade, pensar soluções inusitadas para os problemas do dia anterior que a reflexão deixara para o trabalho dos neurônios à noite, milhões de sinapses cotejando o estoque de imagens, sons, cheiros e sabores estocados no inconsciente, por vezes traziam a resposta buscada e não encontrada pelo consciente.
Várias vezes depois o sonho se repetiu, sem trazer novos contornos ao objeto entrevisto no primeiro sonho. Desde rapaz que tinha sonhos repetidos. Mas eram sempre situações de risco extremo e que resultavam em me acordar desesperado, com a respiração ofegante, como quem têm apnéia noturna e fica sem respirar por alguns segundos, até que o cérebro use um pesadelo para acordar o corpo e forçar a busca pelo oxigênio do ar.
Desde que começara a sonhar com essa imagem, que acreditava ser um objeto sagrado, vinha buscando encontrá-lo, como  uma tarefa a que não podia se esquivar, nem repassar a outra pessoa. Deduzia que a repetição dos sonhos era uma mensagem de Deus, porque, mesmo não sendo religioso, tinha uma fé inabalável na existência de um ser criador, uma divindade criadora, única explicação racional que encontrara para o início do Universo. 
Já me propusera visitar sítios onde pudesse encontrar algo parecido com o objeto de meus sonhos, mas sem um projeto definido. Perto das festas de fim de ano, Natal e Ano Novo quis começar a procurar nas igrejas próximas, mas desisti lembrando que é quando as pessoas enchem os templos, época de refletir sobre o passado ficando para trás e pedir aos Céus um ano bom, próspero e feliz, para todos. Deixei para começar nos primeiros dias do ano entrante, quando o movimento de fiéis, e infiéis, tivesse arrefecido. Sem projeto, sem disciplina, me decidi por confiar no faro, no instinto, para a investigação, a procura, a busca. Haveria de encontrar algo que me saciasse a curiosidade e me permitisse "cumprir a tarefa".
No Domingo anterior ao Natal, deambulando, sem pressa, entre as barraquinhas e expositores em uma feira de artesanato nas instalações de uma extinta fábrica de tecidos. Caminhando aleatoriamente, pude ouvir as falas, os sotaques, os gestos com que as pessoas de várias origens geográficas enriquecem o ambiente cosmopolita de Lisboa, porta de entrada para os outros povos de língua portuguesa. Procurei, em vão por antiguidades.
(...)

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