Seu Manoel
Todos os dias, pela manhã, Seu Manuel vem, com passo miúdo e ligeiro, abrir o pequeno restaurante que mantém na esquina defronte da grande praça de terra batida onde, em sábados alternados, se reúnem comerciantes de roupas, panos e utensílios de uso doméstico, ferragens, plantas, temperos, frutas etc.
O nome da ruela por onde Seu Manuel chega apressado é Beco Sem Nome. É exatamente o que consta em placa tosca, afixada em um postezinho, como que a avisar aos incientes que não adianta perguntar pelo nome do pequeno pedaço de rua. Nessa pequena Freguesia portuguesa de Quinta do Conde, onde além dos nomes das ruas, se registra nas placas a que categoria pertence o dono do nome, como Fulano de Tal, Jornalista, ou Beltrano, Político ou, ainda, Cicrano, Lutou na Guerra da Independência é estranho uma rua, mesmo curta, sem um nomezinho qualquer. A praça, defronte, tem nome, mas ninguém se preocupa em descobrir, pois todos sabem que é o local da feira de sábado da Freguesia.
Os portugueses não se destacam pela estatura. Em geral, tem estatura mediana. Mas há um grande contingente de nativos muito pequenos, com altura por aí pelos 1,40m, 1,50m, 1,60m. Poucos são altos, como o sr. Almeida, que me gritava, já de longe, quando me via, em Jequié, cidade do interior da Bahia, pelos idos dos anos 50, início dos 60:
- Cesarééééiaaaa!!! e ria-se a bandeiras depregadas...
Seu Manuel, é um desses homens com cerca de 1,50m, um homem pequeno, mirrado. Com seu bigodezinho bem aparado, parece, sempre, muito apressado, como se estivesse a correr para atender a uma urgência. É assim, sempre. Talvez por isso está bem de saúde todo o tempo. Entra estação, sai estação e lá vai Seu Manuel, correndo para lá e para cá, como se o mundo estivesse a se acabar, sem um espirro, uma dor de cabeça, uma constipaçãozinha sequer. Não dá pra dizer que é forte como um touro, mas que é resistente como um cabrito, lá isso se pode dizer, sim senhor.
À porta do restaurante nunca há lixo exposto, a calçada está, sempre, impecável. Mas, sabe-se lá, o vento da noite soprou a poeira da praça nua para cá... E tome-lhe vassourada, tome-lhe vassourada, o homenzinho não para. Até ter certeza de que a entrada do restaurante está absolutamente limpa e que nenhuma plantinha rasteira se atreveu a se encaixar entre duas pedras portuguesas, Seu Manoel não para. Daí pra frente é levantar a velha mas bem azeitada porta de metal, abrir de para a par a porta grande de madeira e vidro, checar a perfeita transparência dos vidros laterais e frontal e por-se por trás do balcão onde prepara as refeições do dia.
Dia desses, de repente, um homem grande, de bom metro e oitenta e um vozeirão de trumpete alto, entrou no bar descuidado, olhando para trás e esbarrando na porta de madeira, rodopiou, deu um passo em falso, equilibrou-se e disse um ôpaaaaa!!! Bateu a mão forte sobre o balcão, estremecendo a vitrine com os pastéis de nata, risoles, sanduíches de bifana etc. Seu Manuel não riu, nem desamarrou o muxoxo:
- O que o senhor quer?
Grunhiu entre dentes, sem encarar o homenzarrão.
- Bons dias, seu Manuel! Eu quero 2 ovos com bacon, um sanduíche de fiambre da perna e uma chávena de café com leite bem quente, que o tempo está a esfriar. O inverno esse ano parece que vai ser duro!
Mas quem prestasse bem atenção perceberia que havia algo de errado com o homenzinho. O cenho estava cerrado e ele parecia resmungar alguma coisa. O freguês aboletou-se num dos bancos altos ao balcão e perguntou ao dono do bar que estava estava a aborrecê-lo.
O velhinho, quase gritando:
- Então não sabe o que está acontecendo na Itália? O povo está morrendo na rua! Na rua! O senhor acredita?
O cliente olhou meio incrrédulo.
- Como, morrendo na rua?
- Morrendo, morrendo... como é que se morre, homem?
- Sim, mas morrendo de que? De susto, Seu Manoel?
- Quem está morrendo de susto sou eu!
Imagina se o povo aqui começa a morrer, de que eu vou viver?
- Seu Manoel - insistiu o freguês, quase soletrando - morrendo de que?
- Sabe-se lá? De repente a velharia comecou a ficar doente e quando chega no hospital já é hora de morrer! Ouvi dizer que parece asma, o povo já chega ansiando, cansado e enfiam-lhe um tubo de oxigênio na boca, mais por descarga de consciência, por que já sabem que vai morrer mesmo...
- Ah... acho que ouvi dizer que é alguma coisa da China. Coisa da China nunca prestou! E cravou os dentes no sanduíche de fiambre!
Seu Manoel, o olhar perdido na praça grande, apoiou o cotovelo na caixa registradora e disse baixinho:
- É... coisa da China não presta mesmo.
Boa crônica, meu caro Dr. Fonteseca
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