Esperando a morte chegar.

José Joaquim levantou devagar, enfiou os pés no velhos e esgarçados sapatos e foi pro banheiro. Pra que pressa? Não ia se dar ao trabalho sequer de fazer o pequeno almoço. 
Toda semana repetia o ritual. Seis dias de espera para por o boné, vestir a camisa de manga comprida, desbotada, mas limpa, que não era dado a porcarias e ir ao antigo emprego.
O auto carro N1 - Quinta do Conde-Estação vinha rápido pela Vasco da Gama. Arrefeceu e abriu a porta dianteira na paragem da Av. Principal, perto da esquina da Av. da Liberdade, a uns 1000 metros de sua morada. O homem subiu os degraus com alguma dificuldade, validou o cartão de viagem, disse bom dia ao motorista e foi se acomodar em um dos assentos vazios.
Puxa, pensou, que boa a idéia de se ter um único cartão para circular por todos os municípios da grande Lisboa. Podia passear à vontade. Agora que estava reformado, já não tinha que levantar de madrugada e tomar apressado o pequeno almoço a tempo de chegar à estação de comboios de Coina às 7:15. 
A viagem até Sete Rios durava 30 minutos. Depois tinha que tomar o trem metropolitano até a estação à margem do Tejo e esperar o autocarro que o levaria até a escola em Xabregas, onde durante muitos anos cumprira sua jornada diária. Era o 'faz tudo': porteiro, eletricista, encanador... Melhor do que trabalhar no relento, pensava, enfrentando, ora as intempéries do inverno, ora o calor brutal dos meses do verão em Lisboa e nos arredores.
Desde que se retirara para gozo da aposentadoria fazia o mesmo percurso, uma vez por semana, para rever os colegas do escritório, tomar um cafezinho com bolo no restaurante, enfim, matar a saudade daquele lugar calmo onde envelhecera de um jeito macio, sem gritos, brigas e percalços do trabalho em construção civil, onde fizera de tudo um pouco, sem nunca chegar a mestre de obras. A pensão de quase 400,00€ era menos que recebia na ativa, mas era certo, todo mês, estava na conta. E não tinha com quem dividir. A renda que pagava no apartamento do conjunto social mantido pelo estado era de pouca monta; a água e o gás também não eram mais do que 50 euros. O resto dava pra o alimento, o vinho, e a lotaria toda semana. Só não entendia o gosto de muitos pela raspadinha, um vício sem proveito.
- Bom dia, meninas! Disse, sorridente, à porta do escritório da escola.
- Bom dia, JJ! Responderam.
Gostava de ser chamado assim, carinhosanente, com as iniciais de seu none. Era como se o chamassem pelo none composto, José Joaquim. Ainda bem que não diziam o Seabra, seu sobrenome. Desde menino que os garotos o ricularizavam dizendo, repetidamente  
- Se abra, se fecha! Se abra, se fecha! Se abra, se fecha!
Morria de vergonha. A mãe dizia que esse era um sobrenome importante até no Brasil! Mas ele nunca soube de um artista, um político, um engenheiro com esse sobrenome. Era ridículo, e pronto.
- Bom dia, JJ! Não vai tomar um cafezinho?
Ouviu d. Glória e foi correndo pra não deixar a cozinheira da lanchonete esperando. Era uma mulher pequena, mas ligeira, fazia tudo correndo, parecia ter pressa de viver cada minuto, como se não houvesse o próximo.
Sorveu lentamente a chicara de café com leite, acompanhado de bolo de laranja, absorto, lembrando das muitas pessoas que conhecera ali. Uns já tinham voltado para a morada definitiva. Outras voltaram para as aldeias onde moravam suas famílias. Só,  no mundo, não tinha para onde voltar. Seguir em frente, era sua sina. Até que o Criador o recebesse em seu colo.
- Pensando JJ?, o despertou o empregado que ficara em seu lugar. Um pobre coitado que não sabia fazer nada. Mas era sorridente e nunca reclamava, vivia com um "Sim, senhora!" na ponta da língua e por isso ia ficando.
-Tô, sim! 
- Toucinho? Gritou o rapaz já de longe e deu uma gargalhada.
JJ sorriu e foi dizendo... 
- Até mais ver, d. Glória! 
- Já? Mal chegou e já vai?
- Já, vou no Museu do Azulejo ver se tem qualquer coisinha pra fazer... 
Deixou as moedas na bandeja e foi andando devagar, como se não quizesse chegar a lugar nenhum. Daqui a uma semana repetiria a visita. 
Caminhou pela rua Gualdim Pais, uma longa avenida que vinha de Chelas, viu a obra do antigo balneário, inspecionou as fachadas das casas antigas de um lado e outro, até chegar ao velho Viaduto sobre a Rua de Xabregas. Parou um pouco se deliciando com o som do comboio de alta velocidade que passava sobre o trecho. Depois tomou à Direita e caminhou até o Museu Nacional dos Azujejos. Entrou pelo jardim e acariciou o imenso pote de cerâmica, quase da sua altura e com pelo menos um metro de largura na barriga. 
Passou pela sala de entrada, espiou para dentro da loja de conveniências e foi direto para o restaurante. Quem sabe não tinha um trabalhinho qualquer para emendar a renda mensal?
Não tinha serviço pra fazer. Subiu as escadas e cumprimentou o professor de desenho que orientava os alunos sobre os desenhos das figuras de bichos, reis, caçadas, dos azulejos das paredes. A figura mas apreciada era daquele moço de chapéu engraçado, óculos  de aro e bigodinho fino - o Pessoa.
Hora de voltar pra casa, para o isolamento involuntário, enquanto esperava a vida passar e a morte chegar, pois, como sabia, todo mundo já nasce com o destino traçado, viver pra um dia morrer.



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