Carta ridícula
Alguém, muito especial, me asseverou que Fernando Pessoa disse que "todas as cartas de amor são ridículas".
Eu queria (tanto!) escrever cartas incrivelmente ridículas. Mas... pra quem? Papai Noel? Não o vejo tão gordo há 65 anos! Para Deus? Não acho o endereço, por mais que o procure! Para os amigos? Mas amigos já não tem endereços físicos, só virtuais!
Talvez deva escrever uma carta de amor. Daquelas dos livros vendidos em bancas de jornais. Cheias de frases belas, com elogios falsos, mas tão desejados e bem acolhidos! Mas pra quem? Pra a musa que inspirou um amor tímido e secreto da adolescência? Nem sabe que eu a amei! Para uma mulher que sabe que eu a amei? Já não se importa, iria para o lixo...
Talvez eu deva mandar uma carta de amor para mim. Sim, para mim. E esperá-la ansiosamente! E dizer-me, nela, quanto eu me amo. A mim, tão desprezado! Mas eu sou tão importante para mim!!! Sério! Gosto de mim! Da minha cara feia, da minha barriga gorda, do meu pinto, agora meio murcho, à espera de uma nova donzela (já não tão donzela...).
Então está decidido: Correios e Telégrafos, prepare-se! Escreverei uma carta para mim. Uma missiva. Uma correspondencia. E a postarei. Com zelo, com selo! E nela direi que me amo, que relevo meus erros e meus pecados e me coloco num lugar alto, num púlpito, num altar!
Também confidenciarei a mim, em absoluto segredo, o nome da mulher amada! E nem ela saberá! Porque não vou abrir o envelope!!! Não vou, temeroso, encabulado, não vou ler a carta. Quero só imaginar seu conteúdo. E me deliciar imaginando as coisas que escrevi! E acrescentando, todos os dias, novas frases de amor!
E então, a cada noite, feliz, dormirei me sentido amado!
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