Lembrança
- Me põe para dormir? Perguntou baixinho.
Sentado à mesa da cozinha, girei a cabeça para a esquerda, fitei aquela doce senhora de setenta e muitos anos, sorri-lhe com ternura, venci a dor no joelho ao me levantar, acomodei bem o esporão do calcanhar no sapatênis almofadado, caminhei cinco passos curtos e a envolvi devagar em um abraço terno. Ela acomodou o rosto no meu peito, tocou meu cotovelo, como sempre fazia quando estava muito feliz e fez uma leve pressão no meu braço.
A conduzi com suavidade até a cama, levantei o cobertor aquecido, tomei suas mãos com segurança, a sentei com cuidado e a acomodei debaixo do cobertor e do edredon. Ela me olhou feliz e agradecida e fechou os olhos.
Então, Morfeu a recebeu em seus braços e a conduziu em sonhos à cidade murada de jaspe luzente, e juncada por áureos troféus.
Ainda hoje, sentado à mesa da cozinha, me surpreendo girando a cabeça para a esquerda, evoco a sua imagem a dizer baixinho:
- Me põe pra dormir?
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