A pintura na parede
Tenho um amigo, português, singular, o Vasco Branco, que insiste em dizer que tem um sexto sentido para a arte. Se entra debaixo de uma ponte antiga, se sobe ao telhado de um castelo, se reza em uma igreja abandonada, seja onde for, sempre encontra ora um belo exemplar de arte, ora rústicas figuras de cerâmica antiga, ora refinados trabalhos em madeira de lei. Contou-me , que encontrara um quadro imenso pintado em tons de azul, numa parede num trecho da rua da praia de Sesimbra. Não creio muito nessas fanfarronices de um descobridor de arte que nenhum marchand conhece. Mas, como ele já estava de saída para buscar um documento pertinho do local, convidou-me a acompanhá-lo, lembrando que era a praia mais bonita do município e que eu precisava espairecer e deixar de lado minhas preocupações com a política no Brasil, que andava em completo reboliço. Disse que no trajeto me contaria sobre a pintura, inteirinha, passo a passo, pois dizia saber que eu conhecia a área como a palma de minha mão. Exageros à parte, vamos lá...
Dezembro é o primeiro mês frio em Portugal. Não é aquele frio de rachar os lábios, por que é, ainda o fim do Outono, início do Inverno. Na Grande Lisboa, o tempo era de chuvas esparsas, mas convinha levar um casaco de chuva de sobreaviso. Meu amigo, cuja família é de gente que morre de velho, embora com aparência, à primeira vista, de homem sadio, fumou desbragadamente desde a juventude, fosse por causa do frio, às vezes insuportável na atividade de pesca da sardinha, fosse pela ansiedade do tempo em que servira à Marinha Portuguesa na guerra colonial em África. Daí que luta até hoje com pulmões recheados de uma espécie de resina escura que lhe escapa ao escarrar, e que lhe tinge a arcada dentária empretecida. Além disso tem um ar um tanto lúgubre, faces encovadas, pele de um tom meio cinza, quase esverdeado, talvez pela falta de sol desde que abandonou a pesca. Prevenira-se, pois, vestindo um velho casaco ucraniano, presente de uma irmã que o achara exposto em um brechó na Flórida e lhe custara uns poucos dólares. Embora longamente usado, o casaco era espesso, tinha uma gola de pele e por dentro, nas costas e laterais, material sintético, o que garantia não molhar o tronco na altura das costelas e não arriscar-se a mais um episódio de pré enfisema pulmonar. Em seguida, enfiou-se com alguma dificuldade, no pequeno automóvel a diesel, que mantinha como se fosse um amigo fiel. E eu fui, bem acomodado, de boléia. Ele dirigia devagar, com cuidado, como convinha num país onde o pedestre tem total preferência nas passagens com listras existentes em qualquer rotatória, ou rotunda, como estabelece o código de trânsito português. Vasco tinha imenso apreço pelo carrinho! Até conversava com ele enquanto dirigia!
Tendo ficado três meses no estaleiro, com o perôneo quebrado, o Vasco se tinha garantido uns bons 10 quilos a mais, e a cintura já não aceitava os cintos de couro com facilidade.
Tentou ligar o motor que resmungou um pouco para pegar, mas afinal roncou, valente, solidário com o dono, que já reclamava das mãos frias, começando a aquecer o ar e diminuir a frialdade que se espalhara na freguesia por aqueles dias próximos do Inverno. Depois de uns minutos, com o motor aquecido, partimos, ainda sem sabermos ao certo o caminho. No futuro os carros "saberiam" para onde ir e como melhor ir. Mas ainda estava-se assistindo a disputa dos inovadores em matéria de condução de veículos terrestres e voadores sem comando humano. Por isso Vasco parou o carro na ultima rotatória da freguesia, bem ao lado do prédio vermelho da companhia de bombeiros voluntários e usou o GPS do telemóvel, para marcar o endereço da repartição administrativa onde pretendia solicitar a certidão exigida pelo banco para que pudesse quitar a dívida do financiamento para a compra do confortável apartamento em que morava. Queriam saber se ele tinha outra hipoteca.
"- Veja só!" esbravejou...
"- Se tivesse outra hipoteca, melhor para o banco que eu quitasse logo a dívida! Assim o banco não corria o risco de ver sua garantia dividida com as garras de outro banco!"
Esquecendo o banco e retomando sua história, disse ter feito bem em ter tratado de esquentar o ar antes que as mãos reclamassem do frio que entrava pelas frestas do condicionador de ar, e seguiu o trajeto indicado no telemóvel buscando as estradas intermunicipais que atravessam tanto áreas urbanas como áreas rurais do município - Sesimbra - que tinha duas cidades: Quinta do Conde onde morava e Sesimbra, sede do município a que emprestava o nome.
Pegamos a estrada 10 de Junho, em área ainda urbana, que se conecta logo adiante com as estradas N-377 e N-378, ambas com fim na sede municipal. Na primeira rotunda espiei com carinho o monumento em homenagem ao homem do campo, que fica bem no centro da bolacha, como meu amigo chamava a rotatória. Em concreto, constitui um conjunto formado por um agricultor conduzindo dois jumentos com os respectivos panicuns e que à noite, com sono e depois de um bom copo de vinho, me assustava. Sorri, lembrando, do tempo em que só havia uma meia dúzia de carros nas cidades de interior da Bahia e boa parte do transporte de mercadorias ainda era feito em jumentos e mulas, inclusive do leite vendido de porta em porta. Lembrei, também, dos carotes de madeira ajustados na canga dos jumentos, levando água, supostamente potável, para suprimento das famílias, quando o serviço de fornecimento de água encanada era suspenso.
Na conexão com a estrada principal ouvimos o GPS perguntar se preferiria ir por outro caminho, menos demorado. Os ouvidos do amigo Vasco já não o ajudavam. Até que decodificasse a mensagem e entendesse o que foi dito, já passara do ponto. Mas, de repente, dera uma guinada na primeira saída da rotatória e entrara pela estrada N-377 que atravessa as áreas mais tipicamente rurais da região. Tomei um belo susto com a manobra inopinada, mas me contive de fazer qualquer reparo. Logo nos demos conta que seu faro nos conduzira para o melhor caminho, uma estrada de curvas suaves, ladeada por lindos pinheiros. Acho um verdadeiro jardim rural, pois tem áreas de lazer e quase nenhuma construção à vista, embora a forte procura por imóveis perto de Lisboa prenuncie a criação de aldeias ou de conjuntos habitacionais nas áreas rústicas que em Portugal não podem ter construções.
Eu conhecia vem essas áreas, pois tinha ido várias vezes por elas à Lagoa de Albufeira e à Praia do Meco com Vitorinha, uma pequena, mas vibrante fotógrafa, licenciada em artes e amiga da natureza. Nesse trajeto tínhamos ido, também, eu e minha companheira de caminhadas, ao Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena, nome grande para uma aguada de pouca dimensão, mas o suficiente para a manutenção de uma reserva de patos selvagens e de lontras. O nosso desejo fora ver e fotografar as lontras, mas a cabana estava ocupada por quatro fotógrafos profissionais que, pacientemente esperavam pelos belos nadadores.
Quando eu era menino, havia um pelo de lontra em minha casa, gostosíssimo de pegar e muda sua coloração ao deslizar a mão sobre ele. Mas como já não podem ser caçados, não se pode mais ter esse prazer.
Me lembrei então que quando chegáramos perto da Lagoa Pequena, coberta de juncos, sentira uma saudade ne invadindo, de que não sabia a origem. Talvez uma lembrança de quando era ainda muito pequeno, do rio que cortava Ibicuí, onde viera ao mundo no meado do século XX.
Voltando à prestar atenção na estrada, vi que meu amigo continuava indo em frente na batida de 40 a 50 kms por hora, até depois do acesso à linda lagoa de Albufeira, que quase toca o mar na Praia do Meco, um paraíso ainda meio escondido da sanha turística.
Usando um linguajar típico do Nordeste brasileiro, me disse, sorrindo, que "ia quebrar" à esquerda, como se diz na Bahia, e seguira pelo trecho que vai na direção do acesso ao Cabo Espichel. No Espichel, onde eu adoro ir e levar amigos que me visitam, existe um grande mosteiro vazio e uma bela igreja. Por trás dessas construções e ruínas, estende-se uma vista de encantar a todos. São escarpas de pedras que parecem prontas para desabar ao mais leve tremor de terra. Talvez sejam resquícios do grande terremoto de 1755, que destruiu Lisboa.
Mas tínhamos que sair do Éden e assim voltamos às áreas urbanas e por fim chegamos às ruas apertadas da parte mais antiga da cidade para descobrir que a repartição estava fechada! Vasco espumou, esbravejou, enraivecido, fazendo jus ao sobrenome ficou branco e disse ao carro como se o pudesse ouvir que aquilo era inaceitável, coisa e tal... Só parou quando um transeunte o alertou de que era 8 de junho, dia de N. Sra. da Conceição e por isso a repartição estava fechada. Bateu na testa com um belo estalo, assustando o cidadão, que apressou os passos pra sair logo do alcance de mais aquele maluco brasileiro. Bem que eu tinha achado que havia pouco movimento, mas já não me lembrava que era dia santo também na Bahia, onde havia uma grande festa na frente da igreja e em torno do Mercado Modelo. Frustrado o intento de ir à repartição resolvemos caminhar um pouco, até onde deixara o carro e subimos na direção do cemitério onde demos de cara com uma caveira acima de dois grandes ossos cruzados, pregados numa placa onde estava escrito um pequeno verso:
"Ó tu que me vez,
Repara como eu estou,
Já fui o que tu és,
E serás o que eu sou."
Dada a evidente simplicidade do artista, adentramos o cemitério sem criticar o artista que, simplório, grafou vez em vez de vês...
De repente o grasnar de gaivotas! No cume de um telhado estavam em discussão, que julgamos ser sobre a relação do casal, pois o que parecia ser a fêmea grasnava sem parar enquanto a outra ave baixava o bico, como se estivesse dizendo: - Sim, Senhora!, com um ar de quem tinha culpa, talvez por andar a fazer voos rasantes perto de alguma outra gaivota mais nova...
Chamou-nos a atenção uma revoada de outras gaivotas o que nos trouxe de volta a disposição de caminhar e prosseguimos fazendo um registro fotográfico aqui, outro ali, pois, afirmou, costuma haver mais arte em cemitérios que em certos museus. Fotos de telefone móvel nem sempre têm uma qualidade extraordinária, mas estão sempre à mão quando surge uma composição natural, muitas vezes dificilmente repetível.
Depois, para não perder a viagem, resolvemos ir até à praia famosa de Sesimbra, ver a tal pintura a que meu amigo Vasco se referira e aproveitaria para buscar assuntos fotográficos de interesse dos grupos que circulam pelas redes sociais da Internet em busca de imagens belas e interessantes. Já aderira a vários grupos e me divertia postando e vendo belas fotos de todos os lugares, a maioria dos quais os internautas jamais iriam conhecer.
Visitamos o Forte de Santiago, onde fiz fotos do Castelo que domina o mar desde o cume da escarpa, e caminhando na direção da praia, de repente me dei conta de que um imenso "outdoor" que estava insistindo em permanecer em meu campo visual era, seguramente, o que havia de mais interessante por aquelas bandas. Meu amigo, que se adiantara, estava apontando para a parede azul, onde estava, exatamente como me descrevera, a pintura que o encantou e que mostrava dois operários em atividade laboral, ocupando toda a parede da casa voltada para a praça, no início da rua da praia, e estava bastante viva e bem conservada, o que é raro em obras de fácil acesso a quem transita muito perto de obras de arte. A pintura é toda em tons de azul, como é característico da azulejaria portuguesa. Muito interessante pelo assunto, pela composição e pelo fato de ocupar toda a parede frontal de em prédio antigo.
Muito bonito. Valeu o passeio.
Assim, o que seria uma empreitada frustrada tornou-se uma gostosa viagem de cunho turístico com um bom resultado no âmbito do meu hobbie - a fotografia.
Comentamos um pouco sobre a arte de rua, falei-lhe sobre os lindos muros pintados de Valparaíso, no Chile, cidade de Pablo Neruda. Ameaçava escurecer, pois no início de dezembro o sol começa a se acomodar cada vez mais cedo e retornamos. Agradeci pelo belo passeio e nos despedimos.
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