Conversa de Quatro mulheres
No centro de Portugal, entre Vila nova de Poiares e a Serra da Lousã, há florestas preservadas, "aldeias de xisto", velhos moinhos de vento, paisagens deslumbrantes do centro de Portugal. Em meio a essa beleza verdejante fica, aos pés da Serra da Velha, a pequena aldeia de Venda Nova, que viu crescer o guitarrista Filipe Mendes, ou Phil Mendrix. Perto da pousada, quase um SPA, outrora casa da família, a população fez pintar, em uma parede, a imagem do artista brandindo sua arma de espalhar alegria, sua guitarra. A imagem da explosão festiva do Rocknroll contrasta com a paz reinante na pousada, logo ao lado, uma casa de 1867, com paredes de adobão dispostos quadrupiclados nas paredes estruturais, ensejando um ar de solidez, de estabilidade, de permanência, consistente com a personalidade da proprietária, culta, inteligente, excelente ouvinte e anfitriã diligente, gentil, educada, enfim. Ao jantar, arroz, com frango e caril, preparado por uma das comensais, versada em culinárias de vários continentes e um bom vinho do Douro, entabulou-se uma conversa das três mulheres. Minha amiga, Sandhra, sempre solidária, Lurdes, a motoqueira militante do bom jornalismo, Xaninha, apelido carinhoso da bela anfitriã, nos acolhendo, amigos, como familia, enquanto uma quarta mulher, deslizava, com uma ou outra fala rápida, quase silenciosamente, nos cercando de cuidados e limpeza. Todas portuguesas, com sotaques próximos, suas falas poderiam me enriquecer a alma. Mas meus ouvidos, já abusivamente usados por mais de 70 anos, me privavam, ou me mentiam, as verdades, meias ou inteiras, como costuma acontecer em conversas de comadres. Mas a riqueza da conversa entre amigas, era evidente. Fatos, opiniões, revelações, não como um prestar de contas, obrigacional, mas uma conversa leve, suave, permeada de graça e de risos, um gosto pela conversa em si, num entrelaçamento de almas, uma recomposição dos tempos em que o telefone ainda não substituía a presença do corpo, a visão dos lábios, dos olhos, o meneio da cabeça, o torcer do tronco, o balanço das mãos a enriquecer as falas, a dar-lhes maior significância e brilho.
O vinho nos convidou ao silêncio dos quartos e à maciez dos colchões, preparação para o passeio da manhã pelas ricas paisagens das serras de Penacova, Lousã, Bussaco e da Atalhada, com seus preciosos moinhos e paisagens deslumbrantes, em uma rica celebração da vida.
My Doctor,
ResponderExcluirA alegria que me dá é que ainda temos oportunidade, tal como a que vosmecê experimentou, de reviver tudo aquilo que os primórdios nos ensinou.
Tomando como mote sua notação "uma recomposição dos tempos em que o telefone ainda não substituía a presença do corpo, a visão dos lábios, dos olhos, o meneio da cabeça, o torcer do tronco, o balanço das mãos a enriquecer as falas, a dar-lhes maior significância e brilho.", não me quero estar como um saudosista, simplesmente, tampouco como um conservador ferrenho, mas, convenhamos, que a saudade bate à porte, bate!
Gostei imenso da crônica
Obrigado, poeta!
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