Viajantes pelo mundo
7 de setembro de2024, Dia da Pátria da Nação Brasileira. Viva o Brasil!
Estou em Portugal há 7 anos. E sou questionado por muitos amigos e parentes sobre essa experiência. Fico sempre com a impressão de que o desejo de muitas pessoas de deixar o Brasil e se aventurar pelo Exterior é real, que há uma vontade, mais ainda, uma esperança. Claro que estamos em "times" diferentes. Eu já tenho um sentimento do que é viver fora, a dureza da adaptação. Para quem nunca fez isso tem muito de sonho.
Depois desses anos aqui na Europa, estou mais à frente na preparação para largar tudo e sair por aí, meio _banda voou_ , pela Europa, América do Norte, Central ou paises do Cone Sul e encarar outra cultura, outros modos de viver, trabalhar, olhares de antipatia ou,no minimo, de curiosidade... Mesmo assim, ainda não me atrevo a fazê-lo sozinho. Uma queda, um pico de pressão alta, covid... sei lá! Num tranco qualquer, é preciso apoiar-se em alguém em quem se possa confiar. E a família, os amigos sempre à mão, o conhecimento dos hábitos e das práticas, tudo isso é um patrimônio acumulado de que a gente nem sempre quer se desfazer ou está disposto a deixar distante. Filhos, de qualquer idade, são importantes e a proximidade pode ser preservadora da saúde mental, emocional, psicológica. Então fico a a perguntar se esse é o momento do amigo que me questiona entrar num barco sem retorno previsto. Uma coisa é um cruzeiro. Outra é deixar a Pátria.
Eu vim do Brasil preparado para me afastar dos filhos, para não lhes ser pesado. Pai é diferente de mãe. Mãe dá colo, dá mais apoio emocional. Pai velho dá é trabalho!
Outra coisa que me parece é que a maioria das pessoas estão bem ajustadas ao seu _habitat_ . Têm um quintal, um jardim, tem plantas, têm um cão, um gato, uma galinha! Apartamento é limitante para isso. Você viaja, o bicho não tem com quem ficar. Então, se você perde o contato com uma realidade que você conhece, que não lhe surpreende a todo momento e tem que se ajustar à outros usos e costumes isso pode ser estressante. Desafiador.
Tem mais um aspecto que costumo abordar com quem converso. Em Portugal nós, brasileiros, somos vistos como invasores, malandros, odiados até. Na farmácia, no mercado, na repartição pública, não importa. Sempre nos olham de soslaio. E isso pode não ser importante por pouco tempo. Depois você percebe que até os amigos que você consegue fazer têm restrições aos seus modos, hábitos, uso da língua tal como é falada no local. Se a amizade é verdadeira a gente suoera. Se não é amizade real, você começa a desenvolver uma antipatia interna. Cumprimenta, sorri, mas não estabelece empatia, nunca. E isso tem um preço. Agora imagina se você fica hospitalizado, com médicos e enfermeiras, sem acolhimento... Se no país da gente já é assustador, imagina no território estrangeiro. É o que mais temo aqui.
Ou seja, a decisão de deixar casa, familia interna, parentes, amigos, vizinhos, e o conhecimento dos hábitos, da cultura, tem um alto preço. Quando você leva família junto, você forma um mundinho à parte. Conheço brasileiros aqui assim. Têm família crescendo, tem forte presença na igreja, tem, portanto um complexo de relações "brasileiro". Se tem filhos adolescentes, que se integram mais rapidamente, estabelece-se uma "ponte" para os mais velhos. Para os mais idosos é ainda mais difícil.
Ainda tem o fato de que a língua portuguesa falada em Portugal é parecida com a língua brasileira. É, em geral, difícil compreender a fala dos portugueses. O português usa muito a garganta. Nossa fala é maus labial. É fácil ler o que falamos, mesmo ouvindo mal. Os mais jovens portugueses, que ouvem novelas, conseguem falar "brasilês".
Tem a questão do dinheiro disponível. Por vezes você tem responsabilidades inaceitáveis no Brasil. Pensão, plano de saúde, tributos. Então você tem que avaliar a renda disponível para encarar o desafio. Hoje um real vale menos de cinco cêntimos na Europa. Essa defasagem cambial pode nos impor ajustes no vestir, na alimentação, na diversão, no consumo de produtos culturais, nas viagens. Então, é preciso estarmos confiantes de que poupança prévia é fundamental. Especialmente no item habitação. Se quiser casa própria, preparemos uns 200 mil euros ou vamos viver em aperto. Arrendamento e manutenção da residência, pelo menos 1.500,00 todo mês para uma família pequena.
Quando a gente tem 20 anos, qualquer desafio a gente encara. Aos 70... a gente pode não estar tão dispostos ou tão preparados pra "invadir" o país dos outros! Sinto que já estou quase pronto para embarcar para outros destinos. A princípio em viagens de até 3 meses. Depois não sei. É tempo de aventura? Talvez os meus sonhos estejam acima das minhas possibilidades. Mas sonho a gente constrói no ar. De pois é que a gente alicerça as decisões tomadas.
Esse discurso longo é para perguntar se vocês têm consciência disso e se, portanto, esse é o momento de largar tudo e entrar num navio sem rumo certo, ou sem tempo de retorno previsto. Porque lugar de morrer é em casa!
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