Café da manhã

Ao abrir o Facebook nesta madrugada de meados de Novembro, li a frase mil vezes repetida: "Em que estás a pensar?" Sim... o que eu estava a pensar nesta madrugada fria de fim de Outono, que prenuncia um Inverno rigoroso na Grande Lisboa, tradicionalmente o tempo de refrescar os casacos frios e quase mofados pela longa espera, recolhidos aos fundos dos armários e guarda-roupas?
Pensava em meus tempos de menino! Se eram tempos bons ou ruins? Quem sabe? Enquanto os adultos viviam e os idosos sobreviviam, nós meninos não tínhamos consciência do processo. Abríamos os olhos e aos poucos entrávamos em modo alerta. Um bocejo, uma espreguiçada e os ouvidos iam captando os sons de sempre: o galo atrasado, os passarinhos das espécies ja adaptadas ao meio urbano. Um rolinha 'fogo apagou' ali, um bem-te-vi acolá... Se o tempo estava firme ia ao quintal urinar, que a 'casinha' já estava ocupada pelas meninas, sempre demoradas, sabia-se lá por que.
Menino, à falta do que fazer, dormia cedo e por isso já acordava com fome. Ah, que delícias! 
O café da manhã começava com uma tortura: ninguém tocava em nada até que meu pai dizia algumas palavras para reforço dos valores morais e dizia a Oração do Pai Nosso, que nós encerrávamos, aliviados, com um amém de gratidão - porque a hora de comer finalmente chegara! 
Um ou outro hábito se repetia. Meu pai inaugurava o ataque à comida com a frase mil vezes repetida: "Se queres ser bem servido, serve-te a ti mesmo!" 
O café da manhã nas pequenas cidades do interior era mais diverso que os das grandes cidades, pela disponibilidade de frutas, verduras e pela prática de assar bolos,fazer cuscus de milho. O milho, abundante em Junho, vinha fumegante para a mesa. Outros dias ia-se variando: batata doce, abóbora, aipim, inhame e, vez por outra, inhambú. 
O cuscus de milho era gostoso. Mas o de puba... vixe maria..., era incomparável!
A comida no café da manhã era sempre nova, o que não era a regra no almoço e janta, porque à falta da geladeira, ainda não difundida entre os pobres e miseráveis, a eventual sobra de comida era fervida à noite e voltava à mesa no dia seguinte. Por exemplo, a feijoada nunca era para apenas um dia, até porque, todo mundo sabe, a feijoada no dia seguinte, explora melhor o gosto na boca.
Minha mãe, que fora telegrafista, nos divertia dedilhando palavras em Código Morse, com o auxílio de uma faca de mesa. *_._.   .   ...   ._   ._.*, digitava e revelava o "segredo": Era o meu nome, CESAR! Também gostava de nos fazer repetir palavras e frases em inglês macarrônico, knife, spoon, fork... até que nossa paciência se esgotava e corríamos para nossos folguedos prediletos.
Findo o café, cada filho ajudava no que podia. Guardar as sobras, limpar a mesa, lavar pratos, panelas, talheres e copos e esperar o bolo ingerido se acomodar na barriga para começar a fazer a obrigação de neninos que é brincar e aprontar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Emílio "Zapata"

Colina do desespero

Fazenda Mansão