A mulher no comboio

A balança do banheiro registrara, implacável, 110 Kgs, confirmando a já evidente obesidade, que teimava em não ceder, apesar dos jejuns intermitentes, da musculação, das caminhadas. Na verdade, Fictus andava meio fugido da academia, mas aumentara a frequência das caminhadas para 3 por semana, 

A balança no banheiro registrara, implacável, 110 quilos, confirmando a obesidade manifesta, que teimava em não ceder. Fizera de tudo. Jejum intermitente, reduzira o bom vinho alentejano, quase não comia os deliciosos pães portugueses, chá disso e daquilo, caminhadas frequentes, mas nada da gordura derreter. Sentia-se um Sancho Pança, desejando ser o cavaleiro magro que acompanhava. Não voltara à musculação, mas caminhava uma a duas horas por dia, três vezes por semana. Mesmo se caminhasse todos os dias, não iria parecer um carteiro, pois não é comum um carteiro gordo. Talvez devesse aumentar a distância percorrida  Decidiu-se pelas duas iniciativas: caminhar mais vezes e por maiores percursos. Aos quase 75 anos, era hora de se cuidar, se quisesse chegar aos 94, como seu pai, ou aos 96, como sua avó. Já escapara de dois episódios preocupantes, uma breve isquemia cerebral, que o deixara por instantes sem reconhecer as lojas que mais visitava no shopping, como se nunca as vira antes e um hematoma sub dural crônico, que o levara a deixar os treinos de AI KI DO, luta marcial em que fizera algum progresso. Na época já contava 66 anos, mesma idade com que sua mãe tivera um AVC fulminante. Assim, se pelo lado paterno tinha uma história familiar de longevidade, pelo lado materno tinha que ficar muito mais atento.

Decisão tomada, passara a caminhar todos os dias, chovesse ou fizesse sol. Saía de casa após o pequeno almoço, e em passo rápido seguia em direção à estação de comboios de Coina. 40 minutos era o tempo exato para chegar. Sendo inverno, nem chegava a suar, mas aquecia o corpo. Validava o cartão de navegante idoso, e só então decidia pelo Norte, em direção a Lisboa ou pelo Sul, em direção a Setúbal. 

No dia de São Valentim, dia dos namorados, repetira a rotina, decidindo pela linha do Sul, e se assentara ao lado de uma janela, voltado para a frente da composição, como sempre o fazia, posto que viajar de costas era "atraso de vida", diziam as senhorinhas mais antigas, supostamente mais sábias. Estava reflexivo, não triste. Mas a bela manhã de sol lhe traria mais leveza nas reflexões, esperava.

Os bancos do carro eram duplos e já haviam vários ocupados por duas pessoas. Outros, por apenas uma. Restara vazio o banco à sua frente. A mulher alta e magra que entrara quase ao partir da composição, olhou à procura de melhor lugar, quedou por um instante meio indecisa, mas logo sentou-se à sua frente. 

Fictus amava esses passeios à janela dos autocarros e dos carros dos comboios. Gostava imenso de ver os campos sempre bem cuidados, as pequenas cidades, aldeias, casais, ou casarios, como dizem os brasileiros inadaptados ou resistentes ao linguajar português. Notava que eram cada vez mais raras as casas de fazenda baixinhas, com seus telhados compridos, que pareciam meio enterradas no chão. Os portugueses das gerações anteriores formavam uma população de baixa estatura. Talvez por isso só nos palácios e nas casas mais modernas se viam pés direitos mais altos. Estas casas de fazenda pareciam assim muito baixas, especialmente se construídas à beira de estradas que somente depois foram pavimentadas, com elevação do piso, base, sub base, camadas de alcatrão.

A mulher sentada à sua frente parecia séria, com um semblante um tanto triste, não olhava de frente para seu confrontante, mantendo seu olhar para fora, num ângulo de 45⁰. Quando Fictus fez o mesmo percebeu que a luz da manhã iluminava seus rostos, os refletindo nos vidros de tal modo que duas pessoas de frente, uma para a outra, e olhando para fora no mesmo ângulo de visão, viam-se, um ao outro, refletidos, como se estivessem se encarando, olho no olho, o que era desconfortável. Preferiu, então, olhar para a frente, em direto, o que não resolveria o incômodo dela, porque as mulheres, ele o sabia, mais completas e complexas que os homens, têm seu campo visual mais alargado, conseguindo "ver" mais do que seus olhos mostram. Pensava que elas desenvolveram essa habilidade, desde sempre, para vigiarem, ao mesmo tempo, suas pequenas crias e outras fêmeas interessadas em seus machos, mantenedores do grupo familiar.

A mulher parecia ter uns trinta e tantos anos e sentara-se com uma postura esbelta, elegante, embora não usasse adereços sobre o vestido, um "pretinho básico". À mão, uma bolsinha cinza em que mal caberia cigarros, cartões, algum dinheiro e chaves.

O comboio seguiu em sua rotina de paradas e avanços. Ainda haveriam à frente duas paragens e Fictus resolveu baixar os olhos. Ouviu, baixinho, um "- Obrigada", seguido de um leve movimento afirmativo de cabeça e continuou olhando para fora.

Chegado o comboio a Setúbal, Fictus apressou-se a levantar-se, mas aguardou todos passarem pelo corredor, com isso retendo um pouco mais a companhia de viagem. Por fim desceu do carro e caminhou na direção dos frios bancos de aço da estação. Fazia sempre isso. Gostava de ficar sentado observando as pessoas chegando apressadas para validarem seus cartões e conferirem nas telas os horários e as pistas das diversas linhas, chegadas e saídas.

Viu, então a mulher do comboio caminhando devagar para a saída. Diferente de outras pessoas apressadas, pressurosas, como se tivessem um compromisso imediato, um horário a cumprir, sua companheira eventual de viagem parecia não ter um propósito definido, uma pessoa a vir buscá-la. Observou-a até que cruzou a larga rua defronte da estação e seguiu na direção da praça e da rotunda pelas quais se chega ao belo estádio de futebol, pintado de novo com suas cores tradicionais, verde e branco.

Ficou algum tempo perdido em seus pensamentos, relembrando o tempo em que morava em São Paulo, a grande metrópole brasileira e sua equipa melhor de futebol, seu time predileto - o verde e branco -, o "Porcão", Palmeiras Futebol Clube e seus craques, como Ademir da Guia, filho do lendário Domingos da Guia, ambos astros de jogo elegante. O apito da composição convidando os passageiros para Lisboa o despertou para o que viera fazer. Sua caminhada diária, parte do que agora chamava a tríade da saúde: caminhar, hidratar-se e fazer jejuns intermitentes. Vivia com um certo sentimento de culpa pela obesidade manifesta na barriga redonda insistindo em derramar-se sobre o cinto apertado, sem sucesso para a disfarçar. Pior que isso, instalava-se uma pré diabete, que já lhe deixava a vista meio embaçada. Tinha que reagir e era isso que estava fazendo.

Começou caminhando forte, rápido, apressado, driblando os obstáculos do mobiliário urbano - bancos, lixeiras, contentores, placas de sinalização, esculturas, fontes, postes - que tornam tão difícil caminhar na área urbana, embora menos tedioso que caminhar por sítios vazios. No entanto tinha que fazê-lo com rapidez, pois caminhar devagar, absorto, perdido em olhar com vagar para a arquitetura, para as montras, as árvores, as pessoas não trazem mais força, só cansaço. Era preciso foco no propósito de aumentar o tempo de caminhada e o percurso. Na volta, já no comboio, descansaria por uma boa meia hora até retomar, novamente a pé, o caminho de sua morada.

Caminhar forte lhe garantiria pernas mais fortes, articulações mais azeitadas e mais fôlego para enfrentar as caminhadas em grupo de que desejava participar, sonhando um dia ir a Santiago de Compostela. Trinta minutos para a frente e o mesmo tempo de volta ao comboio, uma hora de caminhada era suficiente, pois já fizera o percurso de sua morada até a estação e faria o caminho inverso na volta. 

No retorno à estação, passou na casa de banho, ou como ainda se referem alguns, no urinol de uso público. Lembrou-se, divertido, de que no Brasil antigo, urinol, ou penico, era um vaso de metal esmaltado que se colocava debaixo da cama, à noite, para não se ter que ir à "casinha", que ficava no quintal das casas. Ainda divagando chegou à cafeteria do prédio, e lá já estava a mulher com quem partilhara a janela no comboio, sorvendo com gosto um galão de café com leite, sem qualquer acompanhamento, sequer uma chamusca, um brioche ou um pastel de nata. Ele estava no período do jejum de 12 horas, mas um café sem açúcar não o comprometeria.

Sentou-se perto da mulher e disse um "- Olá!# que era mais um meneio de cabeça que a emissão de voz audível. A mulher deu um leve sorriso sem abrir a boca. Novamente enxergou tristeza, apesar do sorriso e resolveu arriscar uma conversa.

- Não combinamos um horário, mas estamos novamente sentados próximos, em apenas uma hora!

A atendente se livrara da arrumação das xícaras e pires para a hora de maior movimento e disse perguntando:

- Sim? O que vai ser?

- Um cafezinho cheio, se faz o favor!

- E para comer, um pastel, uma chamusca?

- Não. Estou em jejum até à noite!

Olhou para a mulher e disse:

- Faço jejum intermitente. E você?

Ficou um pouco temeroso por ter arriscado um "você". A mulher demorou um pouco e disse. 

- Acho que já estou em jejum permanente...

Baixou a fronte e pôs a mão  ao lado do rosto para não exibir a expressão de choro contido.

- Desculpe. Saí cedo sem comer nada e a hipoglicemia cobrou um pouco de açúcar. Aproveitei a parada para descansar da caminhada e tomar um café.

- Se foi para regular a glicemia, fez bem! Também poderia tomar sem medo de engordar, pois nada tem a perder, como é meu caso. 

E bateu na barriga, sobrando por cima do belo cinto de couro.

- Precisa de um bom motivo para caminhar ou é só por gosto?

- Saí para pensar. Deixei meu marido hoje. Impossível continuar! Caminhar me permite pensar, conversar comigo mesma.

- Deixou seu marido, assim, e saiu caminhando, sem mais nem menos? É uma decisão difícil, com consequências, não? 

Deixei minhas coisas em duas malas pesadas e saí, mesmo, de mãos abanando. Depois peço a uma amiga para ir buscar. Como não planejei para onde ir, sai para pensar e clarear minha mente.

Fictus levantou-se.

- Os comboios para Lisboa saem a cada 30 minutos. Se for agora, permita lhe fazer companhia até Quinta do Conde. Vi que entrou na mesma estação que eu. Mora lá?

- Sim. Moro. Ou melhor, morava... Agora estou na rua! 

A mulher deu um suspiro profundo e sorriu, agora, nervosa.

Validaram seus cartões e subiram a escada para a pista n. 3, onde estava estava estacionada a composição com destino final Roma/Areeiro.

- Agora me dei conta de que não lhe disse meu nome e não lhe perguntei o seu. Estendeu-lhe a mão, divertido, e disse:

- Fictus!

- Sofia.

Fictus levantou o dedo indicador e disse:

- Nome de rainha...

Ela riu, mas cobriu a boca. Usava unhas postiças. 

- Agora, nem "Rainha do Lar" sou!

- Tem filhos?

- Uma filha. Fazendo faculdade em Milão. Ganhou uma bolsa integral para o curso de artes visuais. 

A conversa continuou, falando sobre amenidades, clima, alguma observação sobre a paisagem, até que chegaram à estação de Coina, que serve a Quinta do Conde. Desceram para o pátio e Fictus virou-se para a direita. Sofia retardou o passo, ficando um pouco para trás. Só então Fictus se deu conta de que Sofia ainda não tinha um destino certo.

- Sofia, gostas de caminhar. Me faz companhia? São 40 minutos até minha morada. Podemos fazer um lanche enquanto você decide o que fazer, que caminhos tomar.

- Gosto mais de correr. Mas outra caminhada como a que fiz em Setúbal me fará bem.

- Nos fará bem. Com esse tempo frio, nos manterá aquecidos. 

Realmente, a parte final da caminhada era uma subida leve, suficiente para aquecer as pernas, gerar alguma serotonina. Sofia chegou ao final, sorridente.

- Fictus, você você me fez sorrir num momento muito difícil. Obrigado, amigo!

Ser chamado de amigo, com tão pouco contato e envolvimento era um evidente exagero ou uma sutileza típica das mulheres para estabelecer um certo afastamento. Conhecia a regra. Não avançar. Não era hora.

- Eu estou feliz por poder servir. Como disse o mestre Jesus: "Il est plus hereux de donner que de recevoir."

- Ho! Ho! Vous parlez Français!

- Je risque de parler un peu...

Subiram a escada da entrada independente do andar da morada e foram para a cozinha.

- Um momentinho, por favor, Sofia. Preciso ir à casa de banho. 

Demorou-se um pouco, aliviando as vísceras, refrescou o rosto e o pescoço, constatou no espelho - e gostou - sua testa ligeiramente morena de sol. Voltou à cozinha e tomou um susto que o faria esvaziar o intestino se não tivesse acabado de fazê-lo. Um homem magro, mas forte, de pouca altura, gogó saliente, com a mão direita sobre o cabo preto de uma pistola Magnun 357 à cintura, sua arma predileta no curso de tiro em movimento que fizera 20 anos antes, apontou o indicador esquerdo, em riste, para a outra cadeira na mesa redonda da cozinha e disse em voz grave, firme, imperativa:

- Sente!

- Me dá um cigarro! Disse Sofia, com voz de mando e quanto espiava as unhas postiças.

Caiu a ficha! Eram assaltantes. A tristeza da Sofia no comboio, pura encenação!

O homem soltou o cabo da pistola, acendeu um cigarro e se achegou à mesa. Meio de lado com o queixo ligeiramente levantado, estendeu o cigarro para a parceira. Foi seu erro. Nos treinos de AI KI DO, quase 10 anos antes, Fictus se destacara pela incrível velocidade com que reagia a um golpe de um de seus colegas em treinamento.

Estava com os pés firmados no chão, o quadril encaixado, tenso, músculos das pernas aquecidos pela caminhada, pronto para reagir. Num movimento único projetou-se para cima e para a direita, enfiou o antebraço esquerdo por baixo do queixo do homenzinho, puxou para trás e encaixou a mão na cova do cotovelo direito por cima do ombro do bandido. A velocidade do ato, a surpresa do delinquente, foram decisivos para um "mata leão" perfeito. Se o ladrão não tivesse um pomo de Adão tão pronunciado, talvez tivesse escapado da morte. Mas a força do golpe partiu-lhe a traquéia, interrompendo ao um só tempo o fluxo sanguíneo para o cérebro e a respiração. Fictus o deixou desabar no chão.

Sofia não demorou para reagir. Suas unhas postiças de nada serviriam, por isso tentou, com a mão esquerda, que segurava o cigarro aceso, enfiá-lo no olho direito de Fictus. Novamente o treinamento lhe serviu. Projetou a cabeça para a esquerda ao mesmo tempo que deu um passo para o mesmo lado. O cigarro passou pelo lado do rosto e foi enfiar-se na orelha direita de Fictus, que segurou o punho esquerdo da mulher, girou-para dentro e para baixo enquanto com a mão esquerda projetou o cotovelo dela para cima. A dor provocada é alucinante e mulher, literalmente, berrou! 

Fictus continuou o movimento, projetou-a no chão, com seu joelho ás costas e tracionou o braço até ouvir e sentir a estrutura do ombro da mulher se desconjuntar. Ela desmaiou.

Retirou os atacadores das botas do homem morto, amarrou as mãos e os pés da mulher. 

Pegou o telemóvel, registrou 4 números, esperou atenderem e disse:

GNR? Acabei de matar um assaltante dentro de minha casa e quebrei o ombro e a clavícula da parceira dele. Podem vir e trazer uma ambulância? A morada e Rua...

Fim

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