A mulher no quintal

Quando menino, todas as janelas tinham tramelas e trancas de madeira. Isso bastava para nos proteger dos ladrões. Bastava um ruidoso "- Pega ladrão!!!" para os cachorros latirem, lâmpadas serem acesas... Um vizinho mais bem disposto exibia uma espingarda de chumbo fino, daquelas de caçar rolas, nambus e juritis. Mas isso era pouco comum. No correr dos meses, de Verão a Verão, vivíamos em paz. 

Todas as manhãs, chovesse ou fizesse sol, minha mãe, sempre feliz, muito falante, abria as janelas de par em par. Eventualmente declarava, como uma profissão de fé:

"- Onde entra a luz e o vento, a doença não entra!" 

Era uma mulher radiosa. Amava a luz. Copiei-lhe o hábito. Não vivo em uma gaiola, preciso de luz, de ar fresco, ou não se ouvirá o canto do pássaro que habita em meu peito. Todos os dias, pelas manhãs ou quando retorno dos meus passeios, abro as portas das varandas frontais, as janelas dos quartos e a janela da cozinha, que dá para os fundos da minha casa e para o quintal da casa por trás. E se estou feliz, assovio, deixo minha alma cantar, passear pela memória das emoções que cada canção me traz. Pode parecer estranho aos vizinhos. Também... Já não se assovia em lugar nenhum!

Abrir a casa nos concede a visão das nuvens, navegando, eternamente, enquanto duram, contra o azul do firmamento. Os porcos, dizem, não olham para o céu. Coitados dos porcos portugueses... Não podem ver como é belo o céu desta terra! O pôr do Sol nos sítios portugueses é uma bênção para nossos olhos, para nossas almas. Nós, humanos, não vivemos a olhar para cima. Só quando nos convém, ou somos despertados por algo em movimento, uma ave, um som, aviões. Nem vivemos a olhar em linha reta. Depois que adotamos o hábito, melhor dizendo, o vício, de consultar os telefones móveis e tablets, estamos nos tornando curvos! E quando quando tristes ou apreensivos e quando caminhamos, olhamos para baixo num ângulo em torno de 70º, um pouco menos.  Se moramos em um 1º andar, é natural que olhemos para baixo, para a rua ou para as casas próximas. No caso da varanda da minha cozinha, as casas escondem a linda Serra da Arrábida. Por isso olho para o quintal mais próximo. 
Tenho um conhecido com quem andei murmurando a esse respeito: 
- A minha vizinha da casa por trás, uma bela mulher, parece não compreender ou não ter consciência disso, pois está sempre de cara fechada! Por vezes dá até uma rabanada, entra e bate a porta da cozinha na minha cara... Parece incomodar-se com a minha presença, sempre eventual. Nunca faço de propósito... 
- Elaa aparece no quintal, ou porque o usa para acesso à morada ou porque usa a cozinha ao fundo, ou porque estende roupas no varal. Então é natural que a veja, quando vou à varanda da minha cozinha, seja porque estou olhando em ângulo habitual, seja porque os olhos tem o hábito de se dirigirem para qualquer pessoa ou animal em movimento à nossa frente. 
- É bonitona? Perguntou-me com um cara engraçada, me olhando meio de soslaio. 
- Hum... Não é gorda, não é pequena, parece bem nutrida, belos cabelos ainda negros... É um belo espécime humano! 
- Gostaria de fazer um aceno discreto. Um meneio de cabeça à guisa de saudação. Somos vizinhos, pombas! Se continuarmos assim, em 20 anos, eu estarei decrépito e ela encanecida, sem sequer no cumprimentarmos. Infelizes para sempre? Não sei o que faço... 
Meu amigo olhou para próprios pés, coçou o queixo com o polegar, esticou o lábio inferior para fora e sentenciou:
- Vá à missa, homem de Deus! Vá à missa! Deixe-a entrar primeiro e em seguida entre e vá sentar-se na bancada justo à frente dela. Vire-se para trás, olhe-a nos olhos e diga algo gentil, trivial:
- Feliz manhã, vizinha!
- Vire-se para a frente, assuma uma atitude de contrição, reze um pouco. Não se demore muito e saia sem olhar para ela. 
- Hum... Será que dá certo?
- É uma primeira abordagem, um teste. Se for devota de Nossa Senhora dos Desvalidos, pode dar certo. Mas quando a mulher é braba, nem apelar aos santos, ajuda... Tem que ir direto a Deus!
E me deixou, braços cruzados, olhando para as nuvens. Vai que Deus ouviu...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Emílio "Zapata"

Colina do desespero

Fazenda Mansão