Em Busca do Graal
A Busca do Graal
- Pedro?
- Pedrinho?
- Peu?
- Pepê!?
Uma voz de mulher tentava acordar o homem de meia idade. Ele ouvia a voz, que lhe era conhecida, que imprimia confiança, mas estava amortecida, distante, alongada...
- Pepê... vou apertar sua mão esquerda.
- Pode sentir?
Mal podia sentir um ínfimo aperto na sua mão. Se mal conseguia distinguir de onde vinha aquela voz... Abriu com dificuldade um olho, depois o outro. Aos poucos, muito devagar, foi se dando conta de que estava em um local que não reconhecia. Percebia que era ficava mais claro do que há pouco, mas não conseguia reconhecer o sítio. Havia paredes claras cuja cor variava de tonalidade e não pareciam paradas. Horas pareciam se aproximar um pouco, horas parecia se inclinar e voltar ao prumo. Assim de longe não percebia se eram firmes ou macias. Só reparava que se inclinavam e se firmavam. Mais um pouco e notou uma imagem com linhas curvas, delgada ao meio e mais larga em cima e embaixo e pensou numa taça grande, que se aproximava e se afastava, voltava a se aproximar e se virava. Pensou no Santo Graal. Algo muito difícil de encontrar e reter. Não parecia ter uma forma fixa, nem uma cor, ora esverdeada, ora creme, mas parecia ter movimento. Ouviu um som melodioso, muito suave, mas não conseguiu compreender. O esforço o deixou exausto. Apagou.
Quando acordou mais tarde, a primeira coisa de que se lembrou foi a imagem que percebera antes de apagar. Tinha a impressão de que era viva, de um modo especial, transcendente, não sólida, nem líquida, algo que queria entender, tocar. Mas, como antes, sentiu-se cansado, a claridade foi diminuindo e voltou a desfalecer.
- Pepê? Pepê? Novamente a voz macia, gostosa de ouvir o trazia de volta à semiconsciência.
- Pepê, estou segurando sua mão e vou picar seu dedo mindinho com a ponta de uma agulha. Sentiu algo que o fez encolher o dedo, tentou abrir os olhos, mas voltou a ficar inconsciente um tempo. Depois de algum tempo ouviu a mesma voz, já mais clara dizer:
- Encolheu! Encolheu! não está descerebrado. Primeiro reagiu ao toque na pupila, agora teve uma pequena reação no dedo!
- Mãe! Pedro ouviu uma voz grave e tranquila, que não lhe era familiar:
- Pedro vai acordar mais dia menos dia. Tenha fé!
Os sons continuavam fracos, fugidios, mas percebia que falavam sobre ele.
Passaram-se alguns dias até que o paciente recuperasse a consciência e descobrisse o que estava acontecendo. Agora as paredes estavam firmes e não eram creme, eram brancas. Estava em um hospital. Disseram-lhe ter escapado vivo de um grave acidente automobilístico quando volta dirigindo da cidade do Porto para Lisboa.
Segundo especulou-se, provavelmente dormira ao volante, depois de um lauto almoço, com uma taça de vinho do Porto. Insistiu que não tomara o vinho do Porto, por ser muito forte.
Arregalou os olhos:
- Um Porto "pega"!
- Foi Douro, sim! Isso lembro com certeza!
Pedro não se lembrava do desastre que diziam ter acontecido, mas lembrava de ter comido um ótimo leitão em Penafiel, acompanhado de uma taça do bom vinho do Douro. Sentara-se defronte do condicionador de ar no restaurante. Fora estava frio e por isso sentiu-se confortável ao expor-se ao Sol de quase três da tarde.
Então foi isso... Barriga cheia, o adormecimento do vinho, um cochilo e o escape da estrada.
- E o carro? O Volvo, seminovo, deslizara no alcatrão molhado numa curva em que os carros pesados deixam umas gotas de óleo, bateu as rodas na borda da pista e depois de capotar uma 4 ou 5 vezes parou de pé, bem assentado sobre os pneumáticos. Pelo testemunho de um camionista que vinha em sentido contrário, relataram, o carro literalmente voou enquanto girava no ar, mas "aterrou" de pé.
- O moço desfaleceu! Talvez por ter chocado a cabeça contra o vidro da porta ou no volante, o que é comum com o cinto de segurança mal ajustado na cintura. Mas a sua companheira de viagem saiu andando, apenas assustada e foi socorrida em um outro veículo que passava.
Pedro projetou a cabeça para a frente e perguntou visivelmente assustado. Companheira de viagem? Não se lembrara de pronto. Rememorou os passos. A moça a quem dera "carona", não estava com ele na mesa do restaurante. Ao sair na esplanada do restaurante viu-a no estacionamento, ao lado do carro. Entrou, calada, desde o início da boléia. O fato de ter pedido "carona" em vez de "boléia" indicava falar "Brasilês", sua língua materna, moda em Portugal, depois da invasão das novelas da TV Globo, do Brasil. Mas... Onde estaria agora? Sentiu um pouco de medo. Uma queixa, seguro, essas coisas. Mas havia algo mais de que não se recordava. Onde estivera antes da viagem?
Pedro ouviu com atenção as explicações do neurologista sobre os danos no crânio. Apesar dos vários giros rápidos no ar, o cinto de segurança evitara um impacto mais forte, mas ele apresentava escoriações na testa e por isso fora submetido a uma tomografia computadorizada que mostrava um hematoma subdural, que já se tornara crônico e o sangramento na altura da membrana aracnoide, que protege o cérebro, já estava em processo de recessão. Por isso não foi necessária uma intervenção cirúrgica, estava recebendo anti-inflamatórios e logo estaria bem. Bastava descansar.
Pedro passou a mão na testa e percebeu que uma parte de seu cabelo fora raspado para os curativos.
- E meu cabelo doutor?
O médico riu. Já fora advertido sobre os cuidados de Pedro com a bela cabeleira que lhe caía à testa à la Ronnie Von, ídolo da Bossa Nova, que sua mãe adorava, e o tranquilizou.
- Logo, logo vai estar bonitão de novo, rapaz!
Voltou a sentir um friozinho na barriga ao lembrar de que havia alguém que não estava no carro, uma mulher com quem estivera, falara. Uma amiga? Não recordava, mas estava certo de que havia alguém mais.
Nos dias que se seguiram começou a ter pequenos flashes de memória dos locais onde estivera. Alguns locais antigos, de arquitetura barroca, um em estilo manuelino, alguns locais grandes, tipo armazéns. Ficava feliz por estar recuperando a memória, mas ainda temia descobrir quem era a companheira de viagem, pois nos flashes sentia a sua presença, sem, no entanto, "vê-la". Até então tivera receio de perguntar a respeito e ninguém tocara no assunto.
Voltara para casa com a recomendação de evitar movimentos bruscos. Descobriu que a cadeira de rodas da vovó, guardada na garage, era perfeita para passar horas sentado sem desarrumar sua coluna. Adotou-a. Logo ao acordar já se mudava para a velha e confortável cadeira. E usava todo o tempo a ler e a pensar na vida. Todo ser humano vai mudando sua visão, suas espectativas sobre o fim, sobre a morte, sobre a passagem desde para outro mundo. Era assim, desde sempre, também, para Pedro. Ainda jovem fora, por diversas vezes, confrontado com essa questão. Ora morria um vizinho, ora era a passagem de um parente distante, mas nunca alguém muito amado, uma pessoa que lhe parecesse imprescindível para a sua existência feliz. Lembrava de comentários sobre a morte dos avós e de seus contemporâneos. De alguns se dizia: "- Morreu como um passarinho!". Então ficava a matutar sobre como morre um passarinho. Está voando no meio do grupo e de repente desfalece e se esbagaça contra o solo? Ou se apercebe do momento e se recolhe para morrer só? Vira um vídeo em que um pássaro jovem trazia comida no bico para outro que já não podia voar. Até quando? Até não poder deglutir? Teriam uma alma? Teriam uma "passagem" para o outro mundo? Seria o mesmo mundo para onde esperava que sua alma fosse levada? Restava saber como morre um passarinho. Mas agora o passarinho era ele e estava vivo! Estivera no umbral, na porta que se abre e da qual não há retorno.
Continuou divagando. Ninguém morre "como um passarinho". Certamente os pássaros não morrem cantando. Quando perdem a potência de voar, de caminhar, de ouvir, de cantar, se entristecem e morrem. Assim são todos os animais e ele não era um vegetal ou um mineral. Sofreria o processo. Provavelmente com dor, a última punição ao corpo físico. Quando ouvia dizer que o defunto tinha um sorriso no rosto pensava no último esforço do moribundo para sugar o ar e reter a vida. Era um esgar!
A cada dia, mais flashes iam trazendo a memória dos fatos anteriores à viagem. Lembrava-se de ter ido ao museu e se lembrava bem da escultura da La Baigneuse Drapée, uma das peças permanentes do amplo e bem cuidado parque da Fundação Serralves, visita obrigatória para quem ama a arte. A escultura de uma mulher nua não é incomum, mas a banhista bem que podia ter uma cintura mais fina. Lembrava das aulas de história da arte na prestigiafa escola Ar.Co, ni velho bairro de Xabregas e de que as musas dos pintores antigos eram todas barrigudinhas. Não mentiam, não escondiam a verdade. Deviam ter proteção nas cortes e gulosas, comilonas, se refestelavam nas mesas fartas. Voltou a pensar na bela escultura outras vezes mas sempre voltava a pensar que o desenho era "imperfeito" por causa da cintura, por mais bem feita para expressar a verdade. Não olhara a escultura por trás e por isso só podia imaginar suas espáduas, que poderiam ser perfeitas. As linhas mais belas do corpo da mulher, estava convencido, eram as que desenham o caminho desde o pescoço até o cóccix. Tentou lembrar de onde lhe vinha a inspiração para "corrigir" mentalmente a escultura exposta. Vasculhou a memória em busca de suas próprias "musas", umas muito magras, outras com excessos que quebravam a proporcionalidade. Os ombros ou as nádegas ficariam muito estreitas ou muito grandes. Sorriu lembrando das esculturas próximas à praia da Ondina, na capital da Bahia. As graciosas esculturas das três gordinhas, de Eliana Kértezs, não eram desproporcionais. Mas as bundas eram imensas, não apenas uma alusão, mas uma clara homenagem às famosas bundas "africanas", das "Maria Fulô", que, pela miscigenação, deram, às morenas e mulatas da Bahia, corpos lindos. Sentiu saudades da "boa terra". Fechou os olhos e, de repente, percebeu uma névoa, uma sombra, que logo se dissipou. Não conseguiu "ver". Seria uma escultura, um vaso? Onde vira algo parecido, com aquelas linhas? Foi chamado de volta à realidade pela mãe que lhe trazia o pequeno almoço.
Desde que voltara para casa a rotina era a mesma. Tinha que se restabelecer, voltar a caminhar, dizia a mãe.
- Peu, olha o que fiz pra você. Banana da terra frita com açúcar e canela!
- Mamãe, isso não é banana da terra, isso é banana pão, pra assar! E tem muito açúcar... Lembro que pareço com vovô e papai e ambos se tornaram diabéticos.
- Por isso tem que levantar e caminhar, queimar gordura! Deixe de conversa e dê graças a Deus que tem uma mãe para cuidar de você. Não seja mal-agradecido.
Calou-se e ficou a pensar que já não era um adolescente, ainda não chegara aos 40, mas já passara da hora de que seguir em frente, formar família, ou iria ser um "paivô". E sua mãe já estava dando sinais de cansaço de tanto trabalho. Bastava o trabalho que tivera com o pai, que vivia no sofá vendo futebol, boxe e corridas, o dia todo.
Sempre que se falava do pai, já em outra dimensão, lembrava da figura redonda, obesa, com diabete "braba" e que se parecia fisicamente com ele. Não era gordo, mas estava desenvolvendo uma barriguinha desconfortável que uns 20 anos depois, se não se cuidasse, ficaria cada vez mais parecido com o pai e teria o seu tempo de sofá...
Vencido o prazo da licença médica, Pedro voltou a sua atividade de Consultor Tributário, especializado em tributação do consumo e com bom conhecimento da legislação tributária brasileira. Por ser um analista, podia trabalhar em regime de Home Office, o que lhe propiciava a administração de próprio tempo de trabalho. Daí que podia viajar o país inteiro e dar umas fugidas pelos países próximos. Adorava ir à Espanha e de vez em quando ia até à França, à Suíça e já chegara a dar uma esticada, via comboio, até Milão.
Aos poucos restabeleceu suas memórias e ficou a ruminar uma por uma, ainda buscando a que correspondia à imagem fugidia que "vira", ou imaginara ter visto, no hospital. Poderia encontrar um link nas suas rememorações. Agora, lembrava-se, fora ao Porto participar como ouvinte do encontro anual dos auditores fiscais brasileiros e portugueses de que também participavam, como ouvintes, africanos e espanhóis. Gostava de participar apenas como ouvinte. Mas, dessa vez, o convidaram a opinar sobre a Reforma Tributária em curso no Brasil, no aspecto que era sua expertise, a tributação do consumo. Tivera o cuidado de iniciar informando que acompanhava os esforços brasileiros desde 1992, quando começaram a ser discutidos as primeiras versões de um projeto de reforma tributária geral e que se interessara especialmente pela tributação do consumo. Surpreendera a platéia dizendo, com todas as letras, que o Brasil não fizera uma reforma tributária geral e sim uma intensificação da tributação do consumo, ou seja, impingira às famílias, uma forte elevação da carga tributária, o que implicava que os mais pobres continuariam a financiar o Estado mais que as pessoas ricas. Notou algum desconforto entre os colegas da mesa de palestrantes, mas continuou insistindo nessa linha, dizendo que era contraditório que em um país em que há fome, ou, pelo menos, alimentação de má qualidade, o custo de vida das famílias seja exacerbado. Mas causou estupor mesmo quando defendeu que o imposto sobre o consumo deveria ser extinto em todo o mundo, por despejar sobre os mais pobres, o custo de estados perdulários, corrompidos e ineficientes. Enquanto falava, gozava, intimamente, por ver a cara de surpresa da platéia, 90% de agentes fiscais dedicados a cobrar o imposto sobre o valor adicionado na cadeia produção-consumo, e na mesa muitos palestrantes especialistas na matéria. A discussão seria ferrenha, mas Pedro foi salvo pelo gongo. Ele havia extrapolado o tempo destinado a ele e muitas pessoas precisavam sair para buscar filhos nas Escolas, outros estavam esfomeados, e o cheiro de boa comida do Norte de Portugal, já se espalhava desde o restaurante ao lado do Auditório, em que o chefe de cozinha era um Cordon Bleu famoso. E ele sabia que nesses congressos bem concorridos, sempre realizados em hotéis luxuosos, a hora do almoço gera uma pressa de chegar primeiro a restaurante porque formam-se colunas de dezenas de pessoas com seus pratos à mão. Quem fica no fim da coluna pega a comida já mexida e remexida. O condutor dos trabalhos, percebendo que se abrisse a discussão naquele momento desagradaria a todos, propôs o encerramento imediato e o reinício da discussão no retorno, no horário combinado. Isso nunca dá certo. No retorno o palestrante é outro e ninguém quer mais discutir o assunto da manhã.
Durante o almoço notara os olhares que lhe eram dirigidos e alguns cochichos. Uma pessoa lhe chamara a atenção. Alta, elegante, cabelos ruivos, talvez uma jornalista buscando falar com alguém importante, um político convidado... Mas não sabia se a conhecia, ou se já a tinha visto em algum evento, mas não se lembrara quem era. Depois do almoço, no cafezinho no bar sofisticado do Hotel aproximou-se.
- Pedro, podemos conversar?
Assustou-se e derramou um pouco do café no pires.
- Oh! desculpe! Que mal-educada que fui o chamando assim pelas costas.
- Não se desculpe. Eu é que estava absorto, perdido em meus pensamentos. Um pouco tenso, talvez.
Agora sabia que não a conhecia. Jamais esqueceria aqueles olhos cor de mel. Ela se deu conta do impacto que sua figura causara e insistiu:
- Parece que o assustei, sim. Como posso me penitenciar e ter a oportunidade de conversarmos?
- O privilégio será meu, falar com uma mulher tão... tão...
- Tão alta?
Sorriu divertida.
- É bem verdade que eu pareço mais alta aqui em Portugal onde a média de altura da população ainda é pouco expressiva. Nos, nórdicos, temos mais centímetros, em média claro.
- Dinamarca?
- Não, Noruega
- Então está explicado. Óleo de fígado de bacalhau na infância.
- Sim. Escapamos do raquitismo do início da era industrial. Vivemos em busca do Sol.
- E aqui, o que busca?
- Conversar, aprender. Podemos nos sentar a uma mesa? Desejo ouvi-lo sobre o tema da sua palestra. Me interesso por questões econômicas, especialmente na área pública.
- Como viu no auditório, parece que não causei boa impressão, pois não?
- Desculpe, estamos conversando e nem sei seu nome...
- Nora.
- Não parece um nome Nórdico... Mais parece um nome latino. O que significa em Norueguês?
- Significa "a reluzente", "a resplandecente" ou "mulher honrada". Vês que não sou pouca coisa!
- Acho que o nome lhe faz justiça. Vamos nos sentar na esplanada? Preciso de um pouco de sol.
Sentaram-se em uma mesa afastada do balcão. Queriam uma certa privacidade. Assim não seriam interrompidos por algum chato querendo parecer o expert em alguma coisa.
- Então Nora, o que lhe chamou a atenção, o que provocou sua curiosidade em relação ao tema?
Nora puxou um caderninho com uma caneta presa por um cordão de ouro e observou que Pedro retesou um pouco o corpo. Todo bom jornalista faz uma leitura da linguagem corporal do entrevistado e força essa tensão quando quer "espremer" o entrevistado. Não era o caso. Queria uma conversa amena, um "papo legal", que deixasse o entrevistado mais solto, sem reservas.
- Pedro, você falou com uma liberdade incrível naquela mesa, considerando que ali estavam especialistas renomados. Ficou um pouco tenso não foi?
- Sim, no início, sim. Mas à medida que notei a atenção da platéia me soltei. Quando a platéia não presta atenção, o palestrante fica temeroso de merda. Oh! Desculpe, soltei um palavrão!
Nora sorriu e reclamou! Merda não é palavrão. Não é linguagem culta, mas não estamos interessados em sofisticação e sim em conhecer a verdade. -
- Você realmente acredita na sua proposta de extinguir-se a tributação pelo Imposto Sobre o Valor Adicionado? É um tributo comum em quase todo o mundo civilizado, não é?
Pedro tocou levemente a mão da jornalista, com sua mão esquerda. Ela não recolheu sua mão. Nem tremeu a caneta. Experiente, sabia que ele estava querendo dizer que era solteiro. Não tinha marca de aliança na mão...
- Nora, quantas famílias dominam as finanças públicas no mundo? Quantos grupos privados decidem se um país vai trocar suas florestas nativas por imensas "plantations" de eucalipto, de soja, de cana, de milho... Mas se você observar em profundidade verá que quem sustenta os estados não são os banqueiros, os financistas, os grandes industriais, os milionários. Quem tem quase metade de sua renda confiscada pelo Estado são os menos ricos, os pobres e até os miseráveis. Quanto da renda de uma faxineira... puxa vida... Não fui politicamente correto! Quanto da renda mensal de uma prestadora de serviços de limpeza é destinada a sustentar o Estado? 30, 40%... E quanto paga um milionário? 20%, 10%?
- Pedro, mas os sistemas tributários não são construídos para sustentar os estados que, assim, poderão garantir a assistência à população mais pobre?
- Teoricamente... Na prática funciona como um sistema de transferência da riqueza, gerada pelo trabalho e pelo pequeno investimento, para os donos do capital da grande indústria e do setor financeiro.
- Isso está parecendo papo de comunista e lá dentro você se definiu liberal, conservador, só faltou dizer "de Direita"!
- Nora, acha que sou louco? Algum ativista ia me gritar, do meio da platéia "- Fascista!" Nem sabem o que significa a palavra, mas virou moda ou você é "woke" ou é "fascista".
- Mas os bilionários criam fundações milionárias...
- Sim, com parte do que teriam que pagar como imposto de renda! Ou seja, fazem o papel de bonzinhos com o dinheiro que de qualquer modo iria para os tesouros dos estados. Então o financiamento dos serviços públicos fica nas costas da classe média e dos mais pobres. Além disso, quem consegue empréstimos mais baratos para financiar suas empresas? Quem tem patrimônio para garantir a dívida!
Nora notou que Pedro estava um tanto exaltado, mas não interferiu. Era o que queria, que ele se soltasse e revelasse seu pensamento, sem subterfúgios. Mas um atendente se aproximou.
- O que vai ser? Vinho, cerveja, champagne?
Nora se apressou.
- Para mim uma cerveja alemã.
Pedro concordou em acompanhá-la. Imaginou que os nórdicos entendem mais de cerveja que a gente de outros países mais ao Sul.
- Duas, por favor.
- Vou lhe dar um exemplo bem atual. Está nos cinemas um dos filmes ganhadores do Oscar: "Ainda Estou Aqui". Um filme brasileiro, bem-feito, com uma boa atriz, denunciando um deplorável crime de tortura pelo regime militar brasileiro, praticado nos anos mais duros do regime. O produtor do filme é supostamente o 10⁰ homem mais rico do Planeta. O financiamento foi obtido junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento, cuja principal fonte de recursos é o Fundo de Amparo ao Trabalhador. É pobre financiando rico!
- Pedro, não querendo interromper, parece que fugimos do assunto...
- É verdade, desculpe. É minha indignação com a roubalheira. Voltemos à questão da tributação do consumo. Pense bem... Quem come mais, o pobre ou o rico? Quem como uma feijoada e quem degusta uma salada leve? Mas o supermercado é o mesmo. E o imposto embutido nos preços é igual. Mesmo que o consumo seja igual, o peso do imposto no salário é 3 vezes maior que o peso do imposto sobre os dividendos, dos lucros, dos ricos. Se o Estado é financiado pelo IVA, o pobre está lasc... Bom... está ferrado!
- Por outro lado, Nora, os ricos buscam paraísos fiscais para aplicar suas rendas e o imposto sobre o lucro dos investimentos imobiliários fica com o país onde estes imóveis estão. Então o dinheiro retirado dos países pobres não contribui para o financiamento dos serviços sociais dos pobres e miseráveis.
- Amigo, se a extinção do imposto sobre consumo, sobre o IVA, diminuir o financiamento do estado o pobre vai sofrer mais...
Pedro quase gritou:
- A solução é óbvia! É preciso aumentar o imposto sobre os mais ricos! Sobre seus lucros e dividendos, sobre suas ricas propriedades, sobre o luxo, sobre o jogo, sobre o vício, sobre suas imensas heranças. Enfim, a balança está desequilibrada para o lado do mais pobre. E isso precisa mudar. Como ninguém vai querer doar seu dinheiro aos necessitados, o Estado terá que impor a tributação sobre a riqueza acumulada.
Pedro se deu conta de que estava exaltado e voltou a pousar a mão sobre a mão da Jornalista. Dessa vez ela encolheu a mão e disse:
- Pedro, foi precioso ouvir você mas, prometi a minha amiga sairmos no início da noite para balançarmos, juntas, nossos esqueletos, num show de Rock e não quero me atrasar. Cabelo, maquiagem, essas coisas...
Pedro entendeu que não havia espaço para avançar, propôs trocarem e-mails para um papo mais longo sobre questões de finanças públicas e ficou a vê-la deslizar sinuosamente em direção à saída. Sentiu fome e lembrou-se de que precisava controlar a barriguinha que já se mostrava saliente e resolveu descer para caminhar ao longo do belo Rio Douro que estava justo ao pé do Hotel.
A cidade do Porto é um desafio para quem quer andar. Mil ladeiras! Pedro imaginou Sísifo naquela cidade... estaria perdido! Para onde se virasse, não conseguiria livrar-se de seu objeto de tortura eterna. Mas a ele bastava ter fôlego para enfrentar as subidas e descidas que estavam no trajeto até o rio. Depois de uma hora de caminhada, já sem "gás", chegou quase de volta ao ponto de partida, ainda tendo ao pé o Douro. Recostou-se numa árvore e ficou de cabeça baixa, consultando no telemóvel as últimas mensagens. De repente foi despertado por um grito.
- Pedro!!!
Estava à sua frente, com os braços abertos, esperando um abraço, uma linda mulher.
- Lucinha!!! Não acredito!
Se abraçaram fraternalmente, surpresos e felizes.
Pedro se afastou um pouco e acintosamente contornou com os olhos toda a figura de sua colega de curso de especialização em Direito Tributário. Tinham estudado juntos e debatido horas a fio sobre a temática do curso, ela pela linha da Economia Marxista e le pela linda do Capitalismo. Quase iam aos tapas, exaltados, defendendo seus pontos de vista, mas terminavam sempre numa esplanada sorvendo uma "gelada", como dizem os brasileiros.
- Vamos comemorar, Lu!
- Vamos, amigo! Umas "geladas" não caem mal após essa longa caminhada.
Eram, ambos, viciados em caminhar e já outras vezes haviam caminhado juntos. Agora começavam pelo fim, pela comemoração. Atravessaram o rio para o lado de Gaia a linda cidade, mais moderna, do outro lado do rio e se aboletaram no balcão de bancos altos. Pode então observar como sua amiga estava bem fisicamente, saindo da saia, sobre o micro short, as coxas grossas não revelavam qualquer gordura, eram apenas músculos, suados brilhantes.
- Então, Lucinha, me conte suas artes. O que faz por aqui?
- Amo essa cidade. Me lembra a Bahia. Mato aqui minhas saudades. E você?
- No novo Congresso de Auditores Fiscais. Dessa vez, como palestrante.
- Hummmm! Importante! E sobre o que inventou suas teorias malucas?
Pedro riu solto, divertido.
- Dessa vez, extrapolei todos os limites. Para uma platéia de uns 500 agentes fiscais do IVA, falar contra o IVA é um sacrilégio. Mas propor sua extinção pura e simples foi um pecado quase mortal. Mas ainda estou vivo, Fugi enquanto era tempo. Se me pegam! Ra! Ra! Ra!
Lúcia estava com os olhos esbugalhados. Não acreditava em tamanha loucura... Propor a extinção do tributo que dava emprego a milhares de agentes fiscais, só no Brasil, mais de 30.000, era loucura total.
- Tu és doido, disse com uma entonação engraçada. E te deixaram escapar com vida!
- Sim. Salvo pelo gongo. Hora de comer nesses congressos, sabe como é. Uma corrida aos pratos! Então aproveitei para fugir, prometendo voltar à tarde.
- Então vai se atrasar!
- Quem vai lá é o quei!,
A colega riu com o ditado com gíria brasileira, usando a figura do coelho.
- Pedro, me explica essa doidice.
Lu, quem governa o mundo? 1,0 % da população. Quem implementa as políticas públicas? Um bando de congressistas e de executivos corrompidos? A quem servem? Aos ricos ou aos pobres? O discurso nos conhecemos:
- Ao povo! Ao povo!
- Grande mentira!
Disse Pedro abrindo os braços em forma de arco, para dar mais ênfase ao "Grande".
É... não posso contestá-lo. Mas daí a propor a extinção do IVA exige apresentar uma alternativa...
Lu, apresentei a alternativa óbvia! Tributar a riqueza, especialmente a riqueza escondida nos paraísos fiscais. Aumentar as alíquotas dos bens e serviços que sustentam os vícios e o luxo e parar de tributar comida. Especialmente a comida das "massas exploradas", como vocês socialistas gostam de dizer.
E escreveu as aspas no ar, com os dedos indicador e médio.
- Tu és doido...
Disse Lúcia, reflexiva, pensando sobre a proposição do colega. Realmente, pensou, há uma injustiça estrutural na tributação das famílias. A maioria sustenta o Estado, enquanto a minoria se beneficia dos recursos públicos mais que proporcionalmente.
- Pedro, você sabe que os capitalistas, "vocês" capitalistas, não fariam o que está propondo. É loucura imaginar que vocês vão atirar nos próprios pés.
- Lu, é verdade. Mas alguém tem que provocar a discussão porque o futuro é tenebroso!
Ela arqueou as belas sobrancelhas, uma moldura para lindos olhos negros. Pedro aos poucos foi se dando conta de que aquela mulher era o que vinha desejando há longo tempo. Alguém que lhe enchesse de desejo e que não fosse uma "loura burra". Tocou levemente no joelho da colega antes de falar novamente e notou que ela não se contraiu. Era um ótimo sinal. Nunca tinha tentado antes porque estava sempre pendurado em uma relação e gostava de ser fiel. Era uma justa razão para exigir reciprocidade.
- Pense comigo flor, Estamos na era da Inteligência Artificial. Somos de uma geração que ainda pôde escolher profissão, emprego. Logo, logo, tudo que sabemos fazer será feito mais rápido e melhor por um robô. A substituição da "ferramenta humana" por ferramentas robóticas é cada vez mais intensificada. Então as pessoas vão perder seus empregos e não vão encontrar novos. Os empregos que exigem conhecimento complexo, sofisticado, são poucos e serão cada vez menos. Então não haverá renda suficiente para o consumo de bens e serviços.
Lúcia o interrompeu:
- Já estou assustada. Se não haverá empregados suficientes para financiarem a minha previdência, como vou sobreviver na velhice?
- Pois é, querida, como vamos enfrentar isso? Eu tenho a solução. Mas não sou uma voz importante.
Ha-há! Então... Pedro tem uma solução para o maior problema do mundo!!!
- Não me goze... Lucinha, quando um neném nasce o que ele tem? O universo! O ar, o Sol, a Lua, os oceanos a Terra inteira pertence a cada ser humano ao nascer.
Lúcia estava sorridente e se divertindo.
- Então, nada é privado! Que maravilha... chegaremos ao ideal comunista através da exacerbação do Capitalismo! O velho Marx estava certo!
- Ei! Ei! Ei! pare por aí! Aquele beberrão, destruidor da própria família e escravo de um capitalista burguês por 19 anos...
- Engels? Burguês? Capitalista? Pedro, você endoidou de vez...
Pedro já estava ficando meio vermelho. A tadalafila já o deixava meio vermelho, Com a raiva que sentia ao falar de Marx, virava um "Mané Verão", apelido de seu avô português.
- Sim. O velho "barba" só escrevia m...
Engoliu o palavrão e prosseguiu:
- Por acaso Engels vendeu a indústria da família e distribuiu com os pobres, ou continuou rico até morrer?
- Marx escrevia o que Engels queria, minha filha!
A cada frase a intimidade ia aumentando, sem que Lúcia se encolhesse. Pelo contrário, estimulava Pedro a se soltar.
- Voltando à vaca fria, cada ser humano é "dono" de 1/7 bilhões de pessoas, população do planeta. Se estimarmos a riqueza em mãos dos ricos em 70 trilhões de dólares e dividirmos por 7 bilhões, chegaremos a 10.000 dólares por habitante.
- Mas, Pedro, meu "filhinho", o Capitalismo se caracteriza pela propriedade privada. O Comunismo é que defende a propriedade coletiva dos meios de produção! Você está virando comunista! Ha! Ha! Ha!, Quem diria...
- Opa! Alto lá.l! Já vem você distorcendo minha fala. Ouça com atenção meu bem... O planeta pertence a todos. Mas sem estímulo ninguém vai trabalhar de graça para os outros. Isso é verborréia comunista. Utopia!!! Todo ser humano é capitalista. As crianças desde cedo procuram acumular brinquedos e se alguém se atrever a tomar um deles, acaba em choro e briga! Os jovens procuram acumular capital para se casarem, terem casa, carro etc. Os de meia idade se preocupam em acumular para a velhice. Ou seja, somos todos capitalistas. Por isso essa baboseira de economia comunista não deu certo em lugar nenhum do mundo.
- Não podemos confundir "propriedade privada" com o "uso privado" da propriedade comum. Percebe a diferença? A propriedade é comum a todos, é coletiva, como você quer. Mas sem o uso da propriedade como se privada fosse, nenhuma economia se viabilizaria.
- Veja o exemplo das tribos de indígenas. As mulheres se matam de trabalhar enquanto os machos se divertem nos jogos, na caça e na coleta de peixes. E em fazer "minino". E top! top! top!
Pedro fez o gesto característico dos homens quando se referem ao ato sexual e continuou.
- O mundo só evoluiu quando o agricultor se apropriou de parte da terra e de sua produção para a troca, o escambo, a comercialização.
- Ainda não entendi como vai se dar a divisão do bolo. Quero meu pedaço, Pedro!
- Garanto que você vai receber o seu... Mas não haverá divisão direta e sim a formação de um imenso fundo único de empréstimos voltado para o desenvolvimento econômico e a renda disso derivada aplicada no combate à fome, no saneamento básico, na saúde e na educação. É uma forma "capitalista" de realizar o comunismo que você prega. Gostou da conclusão?
Sorriram, ambos, entendendo o subtexto.
Lúcia abriu os braços jogando os cotovelos para traz até juntar as omoplatas. Isso expôs o busto ainda de pé da colega o que deixou Pedro excitado.
- Pedro, estou cansada e suada. Depois penso em sua proposta de "Comunismo Capitalista" se que isso pode existir. Mas agora quero um banho gostoso. E moro longe.
- Tenho uma proposta melhor, Lucinha. Reservei o hotel para dois, esperando que surgisse "alguém". Eu não esperava alguém tão especial. Vamos fechar esse encontro com um champanhe, ou um uisquinho honesto e um delicioso banho morno e programar outros momentos tão bons quanto este. Topa uma corridinha até o hotel?
- Ladeira acima? Topo!
E ela partiu na frente, correndo forte e olhando vez por outra para trás. Chegaram quase juntos e foram pela entrada de serviço, para escapar de algum chato que tivesse ouvido a palestra da manhã e quisesse discutir economia, tributação ou política. Tinham uma conversa muito mais interessante...
Pedro desvelou-se em gentilezas, cuidados e encantou a parceira. Em especial, massageou como um expert seus pés, fê-la alongar braços coxas, pernas, torcer o tronco e os quadris, para, dizia ele, azeitar as cartilagens, tornar mais macio e sinuoso o seu caminhar. Em seguida deslizou a parte macia da sua mão, base do polegar, pelo vale da cervical desde a base do pescoço até a proximidade do cócix, região que parecia ser sempre seu interesse maior. Percorreu rapidamente as memórias das costas das suas várias companheiras e não visualizou curvas mais bonitas.
Lúcia perguntou o que encontrara de errado e ele rindo, descaradamente, apertando-lhe as nádegas redondas:
- Nada! Estou só encantado. Tuas costas parecem um cálice com as espumas de Vênus...
Ela acolheu o elogio, virou-se e deslizaram um por dentro do outro com movimentos macios, se cheirando e beijando, e em seguida buscando-se com sofreguidão até se darem por completados em seus desejos.
Depois de algum tempo de descanso os corpos esfriando, Pedro tentou cobrir a companheira com um lençol, mas ela reagiu.
- Pedro, não quero, preciso ir agora. Tenho compromissos. Nos veremos. Quero entender melhor suas loucuras na área fiscal.
Lúcia estava se vestindo e Pedro ficou bebendo a sua figura, seus contornos, sem prestar atenção ao que ela dizia. Até que ela se dirigiu para a porta.
- Espere!
Ele pulou da cama e veio abraçá-la.
- Lúcia, Há tempos não me sinto tão inteiro, tão gratificado, tão... tão... tão feliz! Preciso vê-la novamente. Encompridar essas conversas, compartilhar o que há de mais precioso em nossas vidas, compartilhar o tempo.
- Claro, Pedro! Acabei de dizer que quero ouvir melhor suas idéias. Me parecem mais uma bandeira socialista que capitalista. Fiquei intrigada e quero ouvir mais. Beijinhos!
E saiu serpenteando provocativamente. Pedro ficou olhando, encantado, aquele rebolado suave que se equilibrava perfeitamente com o jogo de ombros. Parecia o meneio de uma serpente... Esta idéia o assustou. Serpente? Sorriu, fechou a porta e jogou-se na cama. O "check out" seria ao meio dia e precisava descansar para voltar a Lisboa.
Acordou às 8 da manhã, e desceu para o pequeno almoço que reduziu a um sumo de laranja e um café. Calculou mentalmente o tempo de viagem. Tomaria uma ducha e iria até Penafiel, cidadezinha próxima para deleitar-se com o que diziam ser o melhor leitão do entorno do Porto.
Em Penafiel, no restaurante à frente de uma linda vinha, observou uma jovem com uma blusa com a inscrição "Mais amor, por favor!". Pensou em comprar uma igual para Lúcia, mas não estava à venda, era uma espécie de uniforme do restaurante. A jovem perguntou se ele ia na direção de Lisboa e se podia lhe dar boléia até Aveiro. Concordou, pois amava ver as rias de Aveiro, com suas embarcações cheias de desenhos e frases picantes.
Comeu mais do que devia. O leitão era imperdível! E o vinho do Douro... incomparável! Para não dormir resolveu conversar com a jovem a quem dera boléia. Mas ela falava sem entonações variadas. Falava em tom monocórdio, uma conversa chata, dava sono... Depois, muitas horas depois, vieram as paredes mambembes do hospital.
Foi quando "caiu a ficha"! Encontrara a imagem etérea, fluida, volátil que entrevira em sua tentativa de recuperar a memória. Encontrara o Graal! Estivera ali, na sua frente, as costas voltadas para ele, lindas, inebriantes, embriagadoras. Era o link que sua mente construíra para o trazer de volta à realidade. Encontrara o seu "graal"!
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