Vendo com os olhos e com o coração
Vou vendo a minha terra com os olhos e com o coração. Sou cidadão da Bahia. Isso exige de mim ser político. Me impõe fiscalizar o exercício do poder na Polis. E apoiar, e repreender o gestor da res publica.
Tenho reclamado horrores da concretagem das outrora belas avenidas de Salvador. O que pensam os destruidores da beleza das belas avenidas de vale? Que serão lembrados por belas obras? Obraram mal. Talvez queiram apagar a lembrança de quem abriu as veias da cidade alta. Não conseguirão. Não se apaga memórias do coração.
Fui rever o Pelourinho. Quis começar por algo que me encantasse. Fui conhecer de viva voz e de vivo olhar, a Primeira Ministra da Republica_AF, uma bastiã da cultura, uma verdadeira Dona Quixote, de olhos azuis. Aninha Franco, sem Sancho Pança, acompanhada por um lindo felino, de olhos igualmente misteriosos. Ambos me olharam a princípio curiosos, depois desconfiados, pesquisadores, e por fim, aparentemente pacificados.
A colecão de livros e vinis do castelo semi subterrâneo é preciosa! Organizada com o zêlo de quem ama. Uma cozinha convida ao bate papo com uma boa cachaça. Mas isso é privilegio que não se gasta com um qualquer. É coisa para amigos fiéis.
Recomendou-me, eu diria, repreendeu-me, ler Hanna Arendt. Não quis lhe dizer-lhe que ainda não estou preparado para ler certos autores. Depois de ler filósofos e historiadores gregos, portugueses, alemães, britânicos, e ter cursado História da Filosofia, ainda não estou pronto para encarar uma filosofia mais crítica, mais dura, abordando a modernidade, a contemporaneidade. Ainda não posso encarar a Hanna, Nietzche, Sartre e Olavo de Carvalho.
Antes de deixar seu pequeno castelo e fugir, desviando meu olhar do encantamento do azul dos seus olhos, sugeri-lhe agregar à sua cozinha o livro Receitas do Planalto de Conquista, que a generosidade de Amelinha Barreto nos deixou como herança de amor.
Sua Excelência, a sra. Primeira Ministra, levou-me à serventia da entrada para que pudéssemos continuar, eu meu caminho pelo pelouro e ela, sua lida diária, admitindo me dar o privilégio de poder retornar. Cuidei de sair de ré, para não perder o rastro, que caminhos que levam a tesouros escondidos não se anotam em papel, se gravam no coração e nos olhos.
A chuva obrigou-me a me abrigar em um interessante atelier de arte rústica defronte dos ateliers do Sesc, onde Robinson, o educado porteiro, me acolheu e me permitiu ver um pouco da área dedicada à cerâmica, arte que andei a praticar em Portugal. À porta, junto à janela, as almofadas de Renda de Bilros e de outra arte de renda onde Everlândia exibia sua habilidade com agulhas. Convidou-ne a visitar no Sábado, uma mostra das artes que ali se ensina.
Segui em frente buscando outras baianidades e me encontrei, no largo da Sé, com o sorriso largo de Ju, que trança os cabelos das moças, e mais adiante com o sorriso de corpo inteiro de Sandra, metida num vestido de baiana, disposta a ser fotografada por quem se disponha a comprar o serviço. Fotografei os prédios da Faculdade de Medicina, onde estudei sociologia, e as igrejas e os palácios, inclusive o belo palacete do Tira Chapéu, à entrada da rua que antecede a Rua do Tesouro, onde comecei minha carreira de mais de 30 anos na fiscalização de tributos.
Me contive para não atirar um paralelepípedo na casa de lata, que um latidor idiota construiu no lugar de um prédio antigo, que tinha as características do entorno e que o descuido queimou.
Cansado, mas satisfeito com a manutenção do que vi preservado, diante de Castro Alves com a não estendida para o Leste corri sob a chuva naquela direção e abriguei-me no café do Cine Glauber para fazer um lanche e escrever essa prosa, à espera de ver e ouvir Ney Matogrosso na tela do cinema.
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