O farol de Lúcifer
Texto base para Roteiro cinematográfico
O farol de Lúcifer
Baseado no livro Diário do Farol, este texto constitui-se num roteiro que pretende dar suporte à transposição do romance de João Ubaldo Ribeiro para a linguagem cinematográfica, com fatos, locais e idéias inseridas pelo autor do roteiro.
A história se desenrola no período de 1958 até à campanha das eleições (Diretas já!) abordando a inserção dos estudentes na luta politica e o papel da Igreja diante da repressão e da ditadura.
O ambiente geográfico do filme é a Baía de Todos os Santos e seu entorno, revelando o recôncavo baiano como um lugar de vocação cinematográfica e turística, buscando valorizar, em especial, a técnica de construção de saveiros, sua história e sua adequação como equipamento náutico para lazer e trabalho.
Sobre este pano de fundo é desenvolvida a história do personagem principal, uma criança vítima de violência doméstica que se transforma em um psicopata e que, sem qualquer sentimento de culpa, e até com orgulho, “orientado” pela voz de sua mãe, que fora assassinada pelo pai do personagem, envenena seus dois irmãos recém nascidos. O desejo do personagem, alimentado ao longo da história, é assassinar o pai com requintes de perversities, para vingar a morte da mãe.
O início de tudo acontece em uma fazenda à beira-mar, em Cairu, próximo da ilha de Morro de Sao Paulo, onde há um pequeno e simples farol e uma igreja católica à beira-mar, dependente financeiramente do pai do personagem, cujo padre prestava assistência religiosa à mãe do personagem, a quem batizara, fizera a primeira comunhão etc.
Bloco 1
Cenas 1 a 6 (fade in)
Enquanto os caracteres e créditos da abertura vão sendo exibidos na tela, uma voz gutural, sombria, fria verbaliza trecho do que o personagem principal do filme escreve na penumbra da casa anexa ao farol da ilha de Lagoa Santa. A penumbra é quebrada pela luz emanada a cada volta do farol, que gira em perfeita regularidade, dexando entrever-se ao personagem principal com uma bandagem suja de sangue evonveldo sua cabeça. O som da voz vai desaparecendo e voltando enquanto enquadramentos diferentes do ambiente interno e externo do “farol de Lúcifer” vão sendo sobrepostos:
- Conto aqui a mais integral verdade e acredito mesmo que me enfureceria a pontos de matar quem duvidasse dela…
(…)
- Haverá quem desconfie da veracidade do que lerá aqui, mas se tratará de um ingênuo nefelibata, ou um dos incontáveis desavisados que não acreditam que o ser humano é irreparavelmente solitário, do nascimento à morte,...
(…)
- Por mim entra o quê? Entra principalmente a vontade de enfrentar e expor o medo embutido na existência, o medo perene que não cessa de assobrar cada um…
(…)
- E entra, talvez tão principalmente, a vontade de contribuir para que o homem sucumba de vez perante o que costuma denominar de Mal e que é a parte mais enraizada de sua natureza…
(…)
- Desejo estragar, ou macular definitivamente sua falsa felicidade, se você se ilude em tê-la. Minha esperança é que ela possa mirrar ou estinguir-se inteiramente, para que você veja o mundo como ele é, ou enlouqueça, ou morra, ou ambas as coisas…
(…)
- Espero incomodar você, dizendo que sou moved a escrever esse relato, mais do que pelos outros motives, pela minha vaidade em me considerar o pior dos seres humanos…
(…)
Bloco 2
Cenas 1 a 9
Cena 1
O céu encoberto por grossas nuvens prenuncia chuva forte. O personagem central, franzino, então com quase 6 anos, brinca em um velocípede ao longo de um varandão de piso de ladrilhos vermelhos, já meio gastos pelo tempo, ladeado por um jardim com flores, que ligava o portal de entrada da casa da fazenda até a grande cozinha com fogão de lenha, sempre quente e fumegante.
Cena 2
De repente o personagem central vê surgir ao longe seu pai, a pé, puxando um cavalo, trazendo sobre a sela o corpo sem vida de sua mãe.
Cena 3
Rosana, a empregada e amásia do personagem central, grita na direção da cozinha, onde as mulheres quebravam ouricuris e os enfiavam em cordas:
- Acode as meninas, acode! Aconteceu alguma desgraça! O coronel saiu com a patroa, cada um em um cavalo, e agora tá voltando um cavalo só, com a patroa desmaiada em cima.
E diz, se bezendo, no que foi acompanhada pelas impregnates que acorrem:
- Deus permita que teja só desmaiada…
Cena 4
Rosana se aproxima do corpo da patroa e dá um grito lancinante, seguido dos choros e lamentos das empregadas. O pai, arranhado, desgrenhado e com expressão falsamente transtornada, informa, com voz fugidia,segurando uma carabina “papo amarelo“:
- A danada da égua! Briosa passarinhou na beira do barranco e rolou ribanceira abaixo. Caiu do barranco e quebrou o pescoço dela. Mas eu matei a disgraced da égua no fuzil.
Cena 5
O pai carrega sobre o ombro o corpo inerte da morta, passando ao lado do filho, como se ele sequer existisse, ainda no velocípede, parado, como que tentando entender porque sua mãe chegara dobrada sobre a sela, molhada e tinha de ser carregada para a cama. O pai ea tia e futura madastra do personagem principal, trocam um olhar cheio de significados ininteligíveis para o garoto, que olha para eles e para o corpo da mãe, alternadamente. O pai, com falsa tristeza, diz à tia:
- Mande chamar o padre lá em Morro de São Paulo.
Cena 6
O personagem central é forçado a beijar a face do corpo sem vida, da mãe, no caixão e o pai, visivelmente irritado, abandona o velório, no que é seguido pela tia, sua futura esposa.
Cena 7
Rosana, e o personagem central no seu colo, vêem, de longe, pela janela, o padre rezando a missa de corpo presente.
Cena 8
Rosana, e o personagem central no seu colo, acompanham o enterro típico, com cantorias e lamentações.
Cena 9
Mal o corpo começa a ser coberto, o pai e a futura madrasta se retiram, sendo acompanhados pelo olhar triste do personagem central.
.
Bloco 3
Cenas 1 a 3
Cena 1
Do lado de for a da casa, Rosana ouve, compungida, os gritos de dor do personagem central, um garoto ainda com 6 anos, enquanto é violentamente surrado por seu pai em mais um acesso de raiva, entremeando as chiabatadas com descomposturas:
- cínico! sujeitinho frouxo! descarado! desqualificado! incompetente! postema!
Cena 2
Rosana aplica cuidadosamente unguento de mastruz nas escorioções decorrentes da surra, enquanto comenta:
- Quase toda semana uma surra dessas… ainda vai matar o menino! Já não basta ter matado a mãe? Deus que me perdoe, mas aquele pescoço num foi quebrado de queda… aquilo foi porrada com coronha da carabina!
Cena 3
A madrasta, sorrateiramente, por trás da porta, ouve os commentarios de Rosana
Bloco 4
Cenas 1 a 18
Cena 1
O personagem central, um garoto então com 12 anos, é abordado por seu pai, que se aproxima do campo de futebol de barro batido, onde jogava futebol com empregados da fazenda:
- Ô perna-de-pau, sai desse jogo que tu não tem jeito pra isso, postema… Não chega nem aos pés do atacante que eu fui!…
E de um modo seco.
- Vamos pra dentro, que eu e sua mãe precisamos lhe falar.
Cena 2
O garoto entra na sala onde já estão sentados seu pai e sua madrasta e se posta, com os braços estendidos ao lado corpo, quase em posição de sentido, e aguarda ordem para se sentar. O pai aponta a cadeira quase debaixo de um grande crucifixo com o Senhor Morto e quase grita:
- Senta aí, e veja se não faz essa cara cínica!
Agora quase berrando:
- Não faça essa cara cínica!!!!
Cena 3
O garoto senta com as pernas bem juntas, meio encolhido para um dos lados da cadeira.
O pai, apontando na direção do garoto com a palma da mão voltada para cima:
- Separe um pouco essas pernas!
Cena 4
A tia-madrasta, grávida, entediada:
- Sente-se direito.
Cena 5
O pai, com irritação mal contida:
- Homem não senta com as pernas juntas assim. Homem tem ovos. Você não tem ovo não?
O garoto entreabriu as pernas e esperou de cabeça baixa, sabendo que ainda ouviria outras descomposturas.
O pai:
- O senhor não me ouviu, não? Responda, deixe de ser frouxo! Nunca pensei que em minha família fosse nascer um sujeitinho frouxo como você, deve ter saído à sua mãe direto, porque sua tia não é assim, nem ninguém da família dela que eu conheça.
O garoto:
- Ouvi, sim, senhor.
O pai:
- Então porque não me respondeu, é só para me irritar? Dá vontade… Dá vontade de me levantar e lhe moer todo de pancada, querer essa cara cínica! Nuca vi um menino tão cínico como você, nunca vi ninguém tão cínico como você! Desfaça essa cara cínica e me responda, me responda, antes que eu faça você se arrepender do dia em que nasceu! Responda, vocë tem ovos ou não tem? É bem capaz de não ter! Às vezes eu penso nisso, às vezes eu penso que você tem um problema nos testículos que faz com que você não tenha saído home na expressão da palavra. Responda!
O garoto:
- Eu tenho, sim, senhor.
O pai:
- O senhor tem o que?
O garoto:
- Eu tenho ovos.
O Pai:
- E porque não se senta como homem?
O garoto:
- Eu me sento como homem. É porque, outro dia, eu estava sentado com as pernas abertas e o senhor me disse que isso era coisa de gentinha, de homem sem educação.
Cena 6
A tia-madrasta, sentada ao lado de um quadro da Virgem Maria, interveio:
- Sentar com as pernas separadas não é sentar com as pernas escancaradas. Você, meu filho, só segue os piores exemplos.
Cena 7
O pai continua:
- Mas não adianta a gente querer se esmerar tanto na educação desse menino! A melhor professora, os melhores livros, uma verdadeira bibliotheca dentro de casa, tudo do bom e do melhor, tudo o que ele não merece e ele se senta como um pirobinho ou como um vaqueiro sem costume! Além de cínico, é teimoso e descarado! Cínico! Descarado! Desqualificado! Desgostoso, desgostoso, desgostoso! Não sei o que fiz a Deus para meu único filho ter saído essa bosta que não serve para nada, até jogando bola é um postema, nem nisso pelo menos ele saiu a mim! E pare com essa cara cínica antes que eu lhe quebre todo!
Cena 8
Ao ouvir a referência ao filho único, a tia-madrasta olha com desdém para o garoto enquanto afaga a própia barriga, grávida de alguns meses.
Cena 9
O pai decide:
- O senhor não sabe cercar um boi no curral, não sabe andar de bicicleta, não sabe jogar futebol, só é meu herdeiro por uma fatalidade! Como Deus não me deu ordem para lhe sacrificar como deuu a Abraão para sacrificar Isaque, sem desfazer a ordem na última hora, como eu sou um homem religioso e de integridade moral inatacável, eu e sua mãe resolvemos lhe dar mais do que você merece: apesar de seu cinismo inato e sua falta de determinação, você vai estudar pra padre, pra ir desempenhar apagadamente, numa paróquia obscura do sertão mais desdenhoso, uma missão nobre que o redima e salve sua alma sem valia.
Cena 10
O garoto engole em seco e se atreve:
- Eu não quero ser padre, eu acho que não tenho jeito para ser padre… Eu queria ser Cadete do Ar! Eu vi na revista…
Cena 11
O pai quase pula da cadeira com a mão levantada, como se fosse dar um sopapo no filho e, destilando ódio, o interrompe, apoplético:
- Cadete do Ar! Militar! Um fracote sem tutano enfrentar a função mais perigosa de todas, pilotar avião de Guerra? Nem pilotar enxada sabe! Podia servir pra limprar privadas!
- Esse imbecil devia ser confinado num zoológico no estrangeiro como exemplo de uma besta quadrada!
- Está decidido! Já falei com o bispo, já garanti a matrícula no seminário de Pedra do Sal, lá na Capital, depois do Farol de Itapoã, bem longe daqui! E sua mãe já preparou o enxoval.
- Agora está de castigo, em jejum, até amanhã de manhã quando eu vou fazer a sabatina dos 10 Mandamentos. Se errar, já viu… cai no pau de novo, que é pra aprender! Depois a gente pega o saveiro que vai pra Salvador, onde o senhor vai estudar no seminário.
- Vai vestir saia, sim, que é pra não me dar netos. Ou isso, ou vai ser capado.
Cena 12
O garoto se retira, choroso e sai correndo em direção à casa da empregada, que o acolhe com carinho em seu colo.
- Postema…
Cena 13
O garoto é levado para seu quarto, por Rosana, que acaricia seu rosto com ar choroso e compungido.
Cena 14
O garoto dorme em sua cama sobre o catecismo que estivera decorando e acorda assustado como se ouvisse algo trazido pelo vento.
Cena 15
O garoto conta a Rosana trechos do sonho que teve com sua mãe, que lhe dissera, com a voz misturada com um vento frio:
- Eu ouvi Rosana, eu ouvi minha mãe me dizendo assim:
- Meu filho, meu pobre filho! Minha alma não tem sossego e vaga em torno dessa casa-grande…
- Eu quero vingança, tua mãe te pede vingança, têem de morrer…
- Vencerás!, vencerás! vencerás!…
Rosana pega um crucifixo, põe na mão do garoto e reza fervorosamente, assustada com o que acabara de ouvir.
Cena 16
O pai acorada o filho jogando com um balde de água fria em seu rosto, e grita:
- Acorde, que está na hora do fuzilamento!
Cena 17
O garoto acorda assustado, aos pulos.
Cena 18
O pai gargalha e diz:
- Ele ainda acha ruim… Acordo ele na hora certa de levantar e ele ainda fica mal humorado!
- Postema…
Bloco 5
O mosteiro onde funciona o colégio de padres revela um ambiente completamente diferente da luminosidade das fazendas na ilha. Há uma forte presença de sombras e imagens a serem trabalhadas fotograficamente e associada ao ambiente religioso repressor.
No seminário, o personagem principal adota a prática de anotar em diários secretos tudo que vê e ouve sobre os colegas e sobre os padres e professores leigos:
Cenas 1 a 9
Cena 1
- Minhas primeiras lições no seminário foram usar as virtudes dos outros para os submeter; ninguém merece confiança; tudo pode ser obtido com argúcia e falta de escrúpulos; todo mundo mente, sem exceção; surpreendo meus adversários nas suas fraquezas de forma decidida e implacável…
(…)
Cena 2
- No meu primeiro ano no seminário me assustei com a severidade do padre italiano responsável pela disciplina. Pensei que ia se repetir o inferno da fazenda de meu pai. Mas agora que sei que ele é regularmente sodomizado, em troca de uma garrafa de vinho ou outros favores, pelo seminarista mais velho do curso, nada tenho a temer.
(…)
Cena 3
- Abomino ser passivo nas relações e não abro exceção! Em compensação tenho imenso prazer em distribuir tapas, palmadas e surras de cinturão e penetrar com violência, a pedidos, gente de olhos azuis cheios de lágrimas.
(…)
Cena 4
- Neste útimo ano tenho chantegeado os colegas que tansam com as lavadeiras e assim obtenho as informações sobre os vícios dos padres, em especial do padre Corelli, um italiano vermelhão, robusto e truculento, que me causa invencível aversão física e com quem me recusei a ter qualquer contato sexual.
Cena 5
Durante uma missa, um aluno do seminário se aproxima furtivamente do personagem central e lhe confidencia algo, recebendo em troca um maço de cigarros, mercadoria desejada e cara, por ser proibida. O personagem central vai silenciosamente em direção a uma casa velha abandoned no terreno do seminário e lá surpreende, sem ser visto, o padre Corelli trocando carícias com um dos seminaristas mais jovens.
Cena 6
Os seminaristas visitam igrejas de Salvador com o padre Corelli, excessivamente disciplinador. Quando visitam o novo templo do Centro Administrativo da Bahia, muitireligioso, o personagem central identifica em um dos anjos pintados na parede uma figura que ele julga demoniaca:
- Olha! Olha! Os cachos de cabelo daquele anjo… são chifres! Isso é que é sincretismo… re-re-re!
Cena 7
O padre Corelli ouve a observação do personagem central e aplica-lhe uma dolorosa torção na orelha, fincando a unha, deixando-a vermeil e sangrando. O garoto lambe o própio dedo sujo com o sangue da orelha, enquanto olha alternadamente, com ar de ódio, para o padre Corelli e para o “anjo com chifres” na parede.
Cena 8
O reitor do seminário e outro padre conversam com o personagem central que aponta em uma direção for a do seminário. Os dois padres se dirigem à casa abandoned e encountered o padre Corelli de cuecas, guardant a chegada de alguém.
Cena 7
Um jovem seminarista chega à casa abandoned com uma garrafa de vinho, entra na sala em penumbra e cham:
- Corelli! Padre Corelli!
Saem das sombras os dois padres com caras amarradas e o rapaz deixa cair a garrafa de vinho que se quebra, deixando o vinho escorrer, vermelho como sangue.
Cena 8
O personagem central aparece debruçado sobre alguns livros e revistas, destacadamente aparecem as capas de “O Príncipe“, “Manual do Agricultor” e “Chácaras e Quintais” e em uma página aberta de outro livro pode-se ler: “… o arsênico é um poderoso veneno …” e ao lado um telegrama recebido dos Correios coma mensagem:
“Sua irmã nasceu.”.
Cena 9
O personagem central guarda os livros em uma prateleira fechada da bibliotheca e presta atenção no fomato das chaves, cuja haste tem a forma de pequeno tubo e se lembra de que suas mamadeiras na fazenda ficavam trancadas em uma prateleira parecida. Retira uma das chaves do chaveiro e guarda no bolso.
Bloco 6
Cenas 1 a 6
Cena 1
O personagem central retorna à fazenda em ferias e é recebido efusivamente por Rosana mas ela é reprehended pelo pai, com dureza:
- Rosana, se retire pra sua casa. Vá cuidar de sua roça e fique por lá mesmo!
E diz ao filho:
- Venha conhecer sua irmã.
Cena 2
O pai apresenta a garota:
- Que que você acha de sua irmã?
O garoto responde com fala melíflua e cara piedosa:
- Acho que agradeço a Deus por ter me dado uma irmãzinha tão bonita, Deua há de abençoá-la e eu irei protegê-la em tudo o que puder.
Cena 3
O pai disse:
- Sim, está certo…
Levantou-se, caminhou até a janela, olhou para o céu e completou:
- Sim, mas eu queria um filho homem, não queria mulher.
Cena 4
O personagem central contrapôs:
- Mas o senhor já tem um filho homem. Eu sou homem. Padre pode usar saia, mas é homem.
O pai, colérico:
- Moleque! Está querendo engrossar o cangote, é? Fazendo gracinha, é? Não sei onde estou que não lhe dou uma surra de cipó! Quer levar uma surra de cipó?
- Não, senhor.
Fale alto, feito homem! Diga alto: não quero!
O personagem central obedece, constrangido, mais alto:
- Não quero.
O pai, ainda colérico:
- Até falando alto você não deixa de fazer essa sua cara cínica e apatetada que herdou de sua finada mãe, a quem puxou até na cara safada. Quer responder alguma coisa? Ande, diga, quer responder alguma coisa?
- Não senhor.
O pai, agora em tom mais baixo, como se falando consigo próprio o pai continua:
- Nem para defender sua mãe você serve, você é um pústula mesmo…
O som desaparece, mas o pai continua falando.
Cena 5
A madrasta aparece, nitidamente grávida, se aproxima da foto da Virgem Maria alisando a própia barriga e o pai completa a fala anterior:
- Finalmente, vou ter um filho homem e não um merda como você.
Cena 6
O filho, ao lado do crucifixo com o Senhor morto baixa a cabeça até tocar o próprio tronco com o queixo.
Bloco 7
Cenas 1 a ?
Cena 1
O pai do personagem central ouve os sons de sua mulher dando à luz a um filho homem ouve seu primeiro choro e não cabe em si de contentment.
Cena 2
O personagem central recebe um telegrama no seminário, dizendo apenas:
“Agora tenho filho homem.”
O rapaz amassa o telegrama com força até ferir a própria mão com a unha, sujando o telegrama com sangue.
Cena 3
O personagem central recebe a notícia de que sua madrasta morrera de complicações pós parto e tenta conter sua alegria, cobrindo o rosto e fingindo chorar.
Cena 4
O persoagem central toma um saveiro no cais da Baiana, no Mercado Modelo, ao nascer do sol e retorna à fazenda passando por Valença e pelo farol de Morro de São Paulo que ele olha atento, ao cair do sol.
Cena 5
O personagem central nao é recebido pelo pai na sua chegada e vai para seu quarto ler um livro religioso, quando seu pai empurra a porta e lhe diz:
- Sua mãe morre, eu espero lhe encountered na capela, rezando pela alma dela, e o que encontro é você, com essa cara cínica, lendo um livro profano.
Cena 6
O rapaz mostra a capa do livro e responde:
- Não é um livro profano.
Em segued se arrepende de ter respondido e baixa a cabeça até toca ro tronco com o queixo. O pai, então, lhe diz:
- Levante essa cabeça! Só vive de cabeça arriada, deve ser por causa dessa cara cínica e sem-vergonha que não consegue esconder. Ande, levante essa cara!
O rapaz:
- Sim, senhor.
O pai:
Ninguém lhe perguntou nada, eu só mandei você levantar a cabeça e deixar de andar como um vira-latas vagabundo! O senhor rezou pela alma de sua mãe, rezou?
O filho:
- Rezei, sim. Rezei na capela um rosário inteiro, até ainda agorinha.
- Acredito que rezou mesmo. Um maricas fracote como você não teria a ousadia mentir pra mim porque eu ia desorbed qualquer mentira sua, mais cedo ou mais tarde.
- Sua mãe morreu me concedendo a bénção que eu mais esperava: a bénção de ter um filho homem.
- Agora que eu já tenho um filho homem, você trate de ir viver seu destino de padre fracassado, moleirão e aparvalhado, socado numa parõquia de quint categoria.
- Pra ser padre de categoria precisa ter tutano, coragem, iniciativa e você herdou da sua finada mãe de sanque foi a debilidade mental. E fique longe de meu filho, seu hermafrodita, que ele tem sangue bom e colhões roxo… colhões de macho!
Cena 7
O pai deu meia volta, saiu quase marchando e disse:
- Postema!…
Cena 8
O personagem central retira do bolso e fica alisando, pensativo, a chave da prateleira da bibliotheca do seminãrio. Por fim dá um grande suspiro e se dirige à cozinha onde furta uma colher de chá da gaveta de talheres.
Bloco 8
Cenas 1 a 17
Cena 1
Fim de tarde, enquanto navega levando passageiros entre Cairu e Valença, passando por Morro de São Paulo, diante de um belíssimo por do sol vermelho, o mestre do saveiro baixa o som do rádio, ligado no acumulador de energia feito com bateria de carro, de onde se podia ouvir a modinha de carnaval “Ô Alá ô, Alá ô, Alá ô… Mas que calor, ô, ô, ô, ô, ô, ô…”, para prestar atenção ao comentário do pai do personagem principal sobre o tempo:
Cena 2
O passageiro, pai do personagem central, um homem forte, de aparência rude, embora rico, falando alto, enquanto esfrega um lenço no pescoço suado:
- Mormaço, né?
Cena 3
O mestre responde, com seu linguajar simplório, apontando para as nuvens carregadas no lado Nororeste da Baía de Todos os Santos:
- É… muntcha nuve que evem puraí… Óia, óia, óia pas banda de Valença!
Cena 4
O mestre franze o cenho e diz com ar preocupado:
- Hum! Isso tá me cheirano um vento Nororeste. Se for, tamo lascado! Vamo chegar in Valença já boca da noite e o faró de Morro pode de tá apagado. Tá sem faroleiro, derna que o véi que toma conta adoeceu. Se relampiar, meno mal. Mermo cum maré arta dá pa ver as peda e o canal de passage... Se não vamo ter que seguir direto pra Valença!
Cena 5
O som da voz do mestre vai sumindo enquanto seu filho ouve, atento, olhos e ouvidos bem abertos, as explicações do pai sobre o modo de navegar entre as pedras, à noite e sem a luz do farol. Essa lição do mestre será utilíssima no futuro, quando o seu filho retornar para salvar a estudante das mãos do personagem principal.
Cena 6
O pai do personagem principal:
- E dá pra passar por elas só com a luz dos relâmpagos?
O mestre, rindo gostoso:
- Xente!… Se dá? Com lua cheia ou relampiano, dá! Que zê… Pra quem conhece o caminho, dá…
O mestre mostrando-se excitado:
- Mas se for mermo o que parece ser, um vento Noroeste brabo, esse saveiro véio vai vuar pur cima das onda!
Cena 7
O pai do personagem principal, mostrando dúvida e preocupação:
- E esse barco aguenta moço?
O mestre, demonstrando conhecimento e orgulho e batendo com o nó dos dedos na borda do barco, diz:
- Se guenta? Vixe! Esse saveiro foi feito pelo pai de fulaninho de Beltrano, maior fazedor de barco dessa baía toda! Os tirante de madeira ele mermo foi buscar nas mata. Veno esse mastro? Range que nem imburana, verga mas nun quebra!
Cena 8
Orgulhoso e feliz, enquanto pilota o saveiro, o mestre comenta com o pai do personagem principal, sobre seu próprio filho:
- O minino tah ino istudá na Bahia. Já fez a dmissão pro ginazo. Vai ser é dotô… fé in Deus. (e ri com gosto).
E complementa:
- Né dotô de pinico, não!!! (gargalha) É dotô de aventar branco, que a mãe vai gomar com muitcho goooosto!…
Cena 9
O filho do mestre baixa a cabeça, olha para a garota ao seu lado e diz, entre dentes:
- Ele que pensa… Eu quero ser é mestre de saveiro, que nem ele!
E confidenciando, orgulhoso, à garota:
- O melhor mestre de saveiro de Valença!
A jovem, esbelta e grande para seus quase 16 anos, ouve com ar de aprovação, aquele menino magro, mas forte, com 16 anos, desafiar assim o desejo do pai. E demonstrando vivo interesse, pergunta ao filho do barqueiro:
- Tu vai estudar em Salvador também, é?
O filho do barqueiro:
- Vou… Terminei o ginásio, agora pai quer que vá fazer o científico no Colégio Central. Pai disse que não quer que eu seja barqueiro.
E diz, com desdém:
- Ó… quer que eu seja, ou médico, ou advogado...
E completa, com firmeza:
Mas o que eu vou ser mesmo é mestre de saveiro!
A moça fecha o diálogo, olhando para o alto e dizendo:
- Pois eu quero ser médica. Mãe diz que eu devia ser professora, pra voltar pra Morro e ensinar no grupo escolar. Mas eu quero ser é médica. Acho bonito cuidar das pessoas.
Cena 10
Num canto do saveiro o personagem central estava sentado, meio encolhido, aparentemente assustado, embora a viagem corresse tranquila. Não havia por que ter medo.
A garota pergunta:
- E tu, também vai estudar em Salvador esse ano?
O garoto nem chegou a balançar a cabeça, temendo que a conversa fosse percebida pelo Pai, que interferiu em tom terminativo:
- Vai. Vai ser padre e pronto!
E como querendo anular qualquer possível interesse da moça:
- E num volta mais…
Calaram-se todos.
Cena 11
O sol se põe, o dia escurece rapidamente e o mar se torna cada vez mais “mexido”, dificultando a navegação. O mestre chama o filho e lhe diz:
- Xico, vamo passar a noite em Morro. Deite lá na proa e vá inxergano as peda. Do lado que tiver uma levante a mão preu ver!
Cena 12
O garoto avançou sobre a cobertura do barco, como um faz um calango sobre pedra quente, se agarrou no cabeçote da peça central da embarcação, deitou-se com as pernas bem abertas e foi levantando ora a mão direita, ora a mão esquerda, até passarem ao largo do farol de Morro de São Paulo.
Cena 13
O pai do personagem principal, vendo sua dificuldade para equilibrar-se com o balanço do barco, gritou:
- Ô imbecil, molóide, fracote! Olha por onde anda pra não cair dentro d’ água e molhar o enxoval de padre.
- Postema…
Cena 14
Desembarcaram no pequeno cais de Morro de São Paulo, onde a mãe da garota, que a aguardava, a abraçou carinhosamente.
Cena 15
Partiram de Morro de São Paulo ao nascer do sol.
Cena 16
Chegam a Valença.
Cena 17
O garoto e a garota foram embarcados em um omnibus para Salvador.
Bloco 8
Cena 1
No ônibus para Salvador a moça e o personagem estão sentados um ao lado do outro, conversando.
Cena 2
Ela faz de conta que está somnolent e escorrega a mão sobre a coxa dele até alcançar-lhe a virilha. É o começo do primeiro envolvimento sexual heterosexual do personagem central.
Cena 3
Em Salvador os dois alunos se encontram na missa aos domingos, quando saem para namorar e vão conhecer os farois de Salvador: num domingo Itapoan, noutro o da Barra, depois o do bonfim?
Cena 4
A moça resolve encerrar a relação e o personagem central se sente rejeitado.
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